Cinéfilos Online


mostra - todos os filmes e cotações

do melhor para o pior.

****

Aquele Querido Mês de Agosto
Three Monkeys
Leonera
A Floresta dos Lamentos
Canção de Baal

***

Queime Depois de Ler
Gomorra
Palermo Shooting
A Erva do Rato
A Rotina tem seu Encanto
Horas de Verão
Che - O Argentino
A Duquesa
Tulpan
O Rufião do Inferno

**

Sob Controle
O Silêncio de Lorna
Três Dias de Chuva
Choke
Música na Noite
Morenita
Il Divo
Liverpool
Ninho Vazio
A Fronteira da Alvorada
Valèrie
Melodias da Primavera

*

Che - Guerrilha
Adoração
Coyote
Horas Suspensas
A Princesa do Nebraska
24 City
Serbis
The Lovebirds
Varsovia Sombria

0

Escrito
Las Meninas
Mistéryos



Escrito por Carlos Massari às 23h14
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mostra - dias 13 e 14


Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes

fim de papo. quatorze dias, quarenta filmes. horas e mais horas dentro de cinemas, almoços em lugares inesperados, diálogos bizarros na rodoviária, corrida para pegar o último ônibus, irritação com os idosos de mostra, irritação com os problemas de projeção. mais uma mostra de são paulo se foi, a quinta que eu estive presente, a trigésima segunda no geral. e agora, só ano que vem. vamos aos dois últimos dias.

Serbis, de Brillante Mendoza, Filipinas, * - complicado falar sobre este filme, que é um trash no sentido visual e temático (não no sentido típico da palavra). vemos aqui uma família que administra um decadente cinema pornô nas filipinas, dentro do qual ocorre prostituiçao de homens, mulheres, travestis, talvez procurando bem, até de cachorros e papagaios. é um tanto quanto apelativo, cru demais - cenas de um furúnculo sendo queimado, sexo oral explicito, entre outros, mas até aí, sem maiores problemas. tenta ser incomodo, e consegue - muito - principalmente pelo constante e interminável som de trânsito que quase me fez tapar os ouvidos eternamente com meia hora de projeção. poderia ser melhor, mais bem explorado e tudo mais, o problema todo é que, depois de tudo apresentado, nota-se simplesmente que não tem mais para onde ir, e torna-se uma tremenda enrolação e repetição de escatologia e barulho. muito, muito barulho.

Melodias da Primavera, de Martin Walz, Alemanha, ** - estranho dar duas estrelinhas pra esse aqui e uma para serbis, uma vez que se colocarmos todos os pontos na balança, o filipino é claramente superior no sentido cinematográfico da coisa. esse aqui, porém, é simpático, ao contrário do irritante filme de brillante mendoza. personagens carismáticos, musicais inacreditavelmente estranhos, enfim, tudo correndo até bastante bem e se levando a uma grande surpresa, até que... ah, a maldita, a tenebrosa armadilha do manual de roteiro, do conflito que aparece ali numa determinada situação só para manter a atenção ou sei lá quais justificativas. chegam bem perto de por tudo a perder, e a nota só não caiu mais pelo fato do filme ser REALMENTE simpático.

Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, Portugal, **** - uma JÓIA do cinema português, filme para se guardar com carinho, na estante dedicada aos grandes. um leque de virtudes extremo - é engraçadíssimo, tem diálogos geniais, um ritmo inovador e uma estrutura maravilhosa, questionando de maneira muito, muito divertida os limites entre ficção e documentário e aplicando sua fórmula em cima deles. o que absolutamente não se vê aqui é manual, e de nada. inclusive no encerramento do filme, com uma seqüência primorosa e lotada de bom humor. tudo funciona, e tudo funciona bem. nunca se saberá o que é de verdade - e isso, mais que não importar, é fantástico.

Coyote, de Brian Petersen, EUA, * - texto sobre Melodias da Primavera está aí em cima com sua crítica ao maldito manual de roteiro que coloca um conflito x para ser resolvido no momento y de filme. e a história é a mesma, o filme era até simpático, passava rápido, numa boa. só que, aqui, o estrago foi grande demais, e realmente não tinha como ser consertado.

El Cielo, la Tierra y la Lluvia, de Jose Luis Torres Leiva, Chile, s/n - último dia de mostra, antes de um filme de quatro horas e meia, cansaço, sono. resultado: foram vistos uns dez minutos deste aqui antes de os olhos se fecharem. e parecia interessante.

Che - O Argentino, de Steven Soderbergh, EUA, ***
Che - Guerrilha, de Steven Soderbergh, EUA, *

sim, são dois filmes e assim serão lançados em circuito e em dvd e tudo o mais. provavelmente esta foi uma das últimas exibições dele junto, mas é fato que são dois filmes. o primeiro, sobre a revolução cubana, o segundo, sobre che nas selvas da Bolívia.
vamos aos fatos: antes do filme começar, rodrigo santoro, que vive raul castro no filme, disse a frase mais chavão e clichê que poderia ter dito: este é um filme sobre o homem, não sobre o mito. ok, seu santoro, discordemos de ti. nem um, nem outro, este é um filme (ou melhor, estes são dois filmes) sobre o guerrilheiro che. durante as quatro horas e tanto, ele está na selva, com um fuzil, dando tiros e fazendo estratégias.

na primeira parte, porém, a narrativa progride - pouco a pouco, a tomada das cidades cubanas, os novos integrantes do pelotão, a relação com fidel castro, tudo isto é interessante e vai fortalecendo o filme. temos o interesse, temos vontade de continuar vendo aquilo, por mais que todo mundo já saiba onde vai dar. o tom é quase documental, praticamente uma aula de história. mas nesta primeira parte, funciona.

em guerrilha, porém, tudo é uma tremenda repetição. já estamos cansados das cenas de treino e de pelotão, não há mais tomada de cidades nem relação com ninguém. o filme é o seguinte: cena 1: alguém trai o bando de che, o exército boliviano chega e mata alguns integrantes, os demais fogem. cena 2: alguém trai o bando de che, o exército boliviano chega e mata alguns integrantes, os demais fogem. cena 3: alguém trai o bando de che, o exército boliviano chega e mata alguns integrantes, os demais fogem. cena x: alguém trai o bando de che, o exército boliviano chega e mata alguns integrantes, incluindo che.
chato. muito.

e em outubro de 2009, mais mostra. mas ainda postarei aqui todos os filmes, em ordem de preferência e divididos por cotação.



Escrito por Carlos Massari às 19h04
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mostra - dias 11 e 12


Three Monkeys, de Nuri Bilge Ceylan

um post quase diário, vejam só. tudo bem, foram dois dias com menos filmes e, portanto, mais tranqüilos. e faltam só mais outros dois dias - que, por sinal, ainda trazem coisas lotadas de expectativas, como aquele querido mês de agosto e che. enfim, vamos ao que interessa.

morenita, de alan jonsson gavica, méxico, ** - interessante este filme de ação mexicano no qual todos os personagens carregam seus podres, dos heróis aos vilões, mas ainda assim consegue-se um discernimento entre carismas e morais. uma história que começa com tráfico de drogas via pombos e termina com ameças familiares e roubos milionários, passando por um romance e um velho torturador da ditadura que está com os "mocinhos". boas cenas, roteiro ok, enfim, filme bastante aceitável.

o rufião do inferno, de kihachi okamoto, japão, *** - os horários das retrospectivas nesta mostra foram cruéis - parece que os organizadores não queriam que o público visse os bergmans e okamotos sendo exibidos - tanto que acabei só com um de cada, sendo este aqui o okamoto - cineasta que nunca tinha visto nada. e já explica-se fortemente o porquê de tarantino ser seu fã e de inspirar-se nele, uma vez que o estilo é muito, mas muito parecido. o rufião do inferno ainda dialoga com vários outros cineastas consagrados, mas principalmente de sua época, e todos também claros inspiradores de tarantino. há muitas cenas aqui extremamente godardianas, e até mesmo no tema que lembra razoavelmente acossado com seus ladrões carismáticos e soluções inesperadas.

three monkeys, de nuri bilge ceylan, turquia, **** - foram trinta e poucos filmes, alguns deles excelentes, em onze dias de mostra. o tempo passava e começava a crescer a preocupação de será que não haverá, nesta mostra, nenhuma real obra-prima? apesar de leonera, a floresta dos lamentos e canção de baal serem filmes maravilhosos, não chegam a ganhar tal denominação. mas finalmente, o problema foi resolvido.

prêmio de melhor direção em cannes 08, three monkeys é o primeiro filme visto nesta mostra que fico à vontade para chamar de obra-prima. é, sobretudo, uma aula de como se manter uma narrativa atraente e não cansativa mesmo deixando de lado os diálogos e caprichando fortemente nas imagens silenciosas, com os personagens remoendo seus lamentos, guardando seus segredos e suas tormentas. para isso, é preciso tanto ter uma estética primorosa - coisa que o filme consegue, a partir da fotografia lindíssima e dos planos muito bem construídos por nuri bilge ceylan - como questões fortes para as pessoas cujas histórias são contadas. e este é um filme sobre mediocridade. sobre fragilidade. sobre muitos defeitos humanos.

o que temos é uma família aparentemente da classe média-baixa turca, com o pai sendo motorista de um político importante, a mãe tendo também um trabalho de pouco retorno e o filho dormindo o dia todo após não ter passado no vestibular. eles raramente conversam. raramente estão juntos. nenhum tem perspectivas para melhorar a vida. um acontecimento dá a todos eles um modo diferente da situação, mesmo que não signifique, necessariamente, melhora. aliás, absolutamente não significa.

narrando puramente com imagens na maior parte do tempo - coisa que seria o princípio do cinema - o filme ainda tem o mérito de colocar diálogos onde eles realmente importam, e diálogos fortes e bem feitos. para uma história como esta, não haveria forma melhor de desenvolvimento. e ceylan é extremamente feliz em todas as escolhas que faz durante os 110 minutos, fazendo-se assim incrivelmente merecedor de seu prêmio.

a fronteira da alvorada, phillipe garrel, frança, ** - desde o início percebia-se que não era um novo amantes constantes, mas ainda tinha cenas bastante bem construídas com a novamente excelente fotografia de william lubtchansky. o romance se desenvolvia, os personagens também, garrel caminhava para entregar mais um filme, no mínimo, bastante respeitável. o problema é um terceiro ato completamente ridículo, vergonhoso, que sabe-se lá de onde pode ter saído. após ele, ficam algumas boas lembranças, e é impossível dizer que se trata de um desastre completo, mas a imagem é bastante manchada.



Escrito por Carlos Massari às 23h29
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mostra - dias 8 a 10


Gomorra, de Matteo Garrone

a paciência para textões sobre cada filme, acabou. a paciência pra pesquisar imagens e colocá-las aqui, acabou. a paciência para posts diários, acabou. fato é que são dez dias de mostra, trinta filmes vistos, poucas horas de sono, muitas horas de poltronas, de lanches rápidos, de ônibus, de metrô, de caminhadas rumo ao desconhecido. e, com tudo isso, a situação se complica. mas como eu acho, no mínimo, uma obrigação minha (e para mim mesmo, já que ninguém lê isso aqui) manter o blog devidamente atualizado com o que tem sido mostrado em são paulo, postarei aqui textos sobre cada filme, curtinhos, com cotações de 0 a 4 sem meias, dando pinceladas e impressões. letisgo!

The Lovebirds, de Bruno de Almeida, Portugal, * - mais um filme seguindo o velho modelo do várias histórias paralelas acontecendo em um lugar x e num espaço de tempo y. este aqui consegue a proeza de ser um verdadeiro nada - não é desesperadoramente irritante como crash - no limite, não é somente ruim como babel, não é legal e bonitinho como três dias de chuva, não é bom como magnólia, não é genial como amores expressos. ele simplesmente existe, e nada causa interesse nem repulsa. tem um homem colocado pra fora do quarto de hotel pela amante, tem um taxista que assassina uma prostituta, enfim, tá. nada de válido nem na premissa, nem na execução, nem no desfecho. totalmente esquecível.

Mistéryos, de Beto Carminatti e Pedro Merege, Brasil, 0 - antes ser esquecível que ser isso aqui. simplesmente não sei definir, mas é provavelmente uma das piores coisas que já vi na vida. tem uma introdução bizarra, com um textinho se repetindo, um homem que vaga pela cidade e começa e faz reflexões sobre muitas coisas absolutamente sem sentido e que não são misteriosas, mas dando um ar tremendamente sombrio a elas (por que as velas ficam acesas? oh, isso é um mistério!), e então conta histórias da cidade de curitiba - primeiro, um desaparecimento que me lembrou um linha direta piorado, depois, um filme pornô de 1923 encontrado em algum lugar, com cenas dele recriadas de forma inacreditável. enfim, mistéryos é algo que merece ser estudado dentro de sua ruindade, de sua completa falta de uma unidade cinematográfica, de uma narrativa, de qualquer coisa. a ordem despojada que os elementos são postos em cena, os temas escolhidos, o texto fraquíssimo. coisa realmente triste. nem ed wood chegou a tal nível.

Il Divo, de Paolo Sorrentino, Itália, ** - cumpre o que propõe ao contar com bom humor e sarcasmo a trajetória de giulio andreotti, um dinossauro da política italiana acusado de uma centena de coisas, aparentemente um paulo maluf piorado (sim!). porém, é inevitável a comparação com o crocodilo, de nanni moretti, e é aí que a coisa fica feia - moretti é indiscutivelmente muito mais cineasta que sorrentino, dá um banho de narrativa, de composição, de direção, de tudo. mas il divo é bastante digno, ainda, e não é nada dispensável.

Escrito, de Kim Byung Woo, Coréia do Sul, 0 - terceira bomba absoluta da mostra, depois de las meninas e mistéryos. o sr. kim byung woo deve ter pensado que estava numa rave ou coisa do tipo, pois os cortes aqui tem um ritmo completamente irritante e desesperador, o começo é roubado de jogos mortais - aliás, o filme todo é um jogos mortais com edição de rave e vontade de ser moderninho e metalinguístico, além de diálogos péssimos e justificativas risíveis.

Horas Suspensas, de Peter Marcias, Itália, * - começo interessante com uma estranha relação entre um homem cheio de problemas e uma moça jovem e bonita. aos poucos, porém, vai se enveredando para o caminho das histórias paralelas e perdendo totalmente o rumo. acaba ficando igual o que foi citado para the lovebirds, nada tem o dom de se manter nem para um filme sozinho, quem dirá para algo cheio de historinhas. esse aqui é um pouco melhor pelo começo.

Palermo Shooting, de Wim Wenders, Alemanha, *** - muita gente malhou wenders por esse filme, como faz com todos os outros mais recentes dele, dizendo que o fundo do poço chegou, etc etc. eu absolutamente não concordo, e vejo aqui - bem como em don't come knocking - mais um belo filme do cineasta alemão. e tudo nele é muito wenderiano, a viagem, o artista em crise, o lugar para recomeçar, o desejo pela liberdade, a busca ou fuga de alguma coisa. a essência de wenders está lá, e a impressão que eu tenho é que ele busca meios para se reciclar - e, no caso de palermo shooting, este meio seria apelar para o lúdico, coisa que não é o seu campo. a morte que persegue o personagem principal é extremamente bergmaniana, praticamente retirada de o sétimo selo. e wenders conta sua história, provavelmente consegue o que queria, mas ainda deixa a impressão que nunca mais será tão genial como foi na década de 80.

Valérie, Brigitt Moller, Alemanha, ** -  filme indicado por wenders para a mostra, e mais uma vez, algo extremamente com a cara do cineasta alemão. temos outro artista em crise de personalidade, morando nas ruas, dentro de um carro, vagando sem rumo pela cidade. é um trabalho sem muitos destaques, mas ainda assim interessante e bem construído.

Gomorra, Matteo Garrone, Itália, *** - grande prêmio do júri em cannes neste ano, filme extremamente corajoso sobre a máfia siciliana - mas ser corajoso não é virtude para um filme, e sim toda a capacidade de amarrar e contar uma narrativa como matteo garrone faz aqui. não sei bem se tem funcionalidade como denúncia ou sei lá o que, fato é que sai do filme com a mesma vontade que sempre tive de ser mafioso - não mudou a imagem que tenho da organização. mas é menos seco e mais dinâmico do que eu imaginava pelos comentários, tem até um constante uso de trilha sonora, personagens carismáticos, bandidos pelos quais se torce. óbvio que não é um scorsese, mas ainda é um grande filme.

Choke, Clark Gregg, Estados Unidos, ** - fortíssima candidata à comédia cult do ano, com todos os elementos necessários para tal - humor negro, tema propício (um viciado em sexo), boas tiradas, elenco principal inspirado, momentos de redenção e de exaltação à bela vida. últimos dois elementos que são justamente os que impedem que seja um filme melhor, já que acaba caindo nos clichês e se levantando com muito custo, apenas com a ajuda de várias sacadas excelentes, algumas gargalhadas e sam rockwell excelente no papel principal.



Escrito por Carlos Massari às 02h38
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mostra - dia 7


Canção de Baal, de Helena Ignez

antes do início da sessão de canção de baal, helena ignez discursou falando que o filme era, sobretudo, uma homenagem a rogério sganzerla. com a projeção em andamento, percebe-se facilmente que há uma dose gigantesca de verdade nestas palavras, uma vez que provavelmente desde a morte do próprio sganzerla não se via no brasil um filme tão deliciosamente anárquico, capaz de desrespeitar as ordens vigentes e simplesmente contar sua história sem seguir nenhuma convenção.

baal, o protagonista, é um completo outsider, bebe o tempo todo, faz poemas bizarros, canta à liberdade e foge da sociedade. é um gênio, e um gênio maluco, um gênio que ninguém ficaria conhecendo. na primeira cena, toca piano com a bunda. depois, ironiza um mecenas. trata suas mulheres de forma absolutamente incomum. e segue sua jornada.

o filme segue o espírito deste personagem, com inserções de um estranhíssimo albert einstein falando português, discursando sobre futebol, entre outras coisas. canção de baal funciona de qualquer forma que poderia querer funcionar, seja como homenagem, seja como experimentalismo, seja como uma expressão do lado surreal da vida. um personagem usa uma frase emblemática em certo momento: se uma história faz sentido, é porque não foi bem contada. pois bem. este filme tem seus múltiplos sentidos, bem como baal, bem como seus poemas. e tudo é maravilhoso.

este foi um dia extremamente versátil, começando na anarquia de helena ignez, passando por olivier assayas e seu filme familiar que demonstra também a sua extrema versatilidade e terminando... bem, vocês verão como. assayas combina perfeitamente com este sentimento de versatilidade, uma vez que vinha de filmes bastante sombrios, como demonlover, e chega agora com horas de verão, que é tão voltado para as relações humanas e para as pessoas comuns.

esta é uma obra sobre três irmãos com problemas com a herança após a morte da mãe - e isso já lembra alguma bomba bizarra do cinema nacional. mas assayas é um tremendo cineasta e, mesmo saindo deste campo que vinha explorando em seus últimos filmes, constrói uma história com extrema fluidez, sem deixar caminhar para nenhum lugar comum, fazendo um trabalho bonito que se revela por ser sobre memória, sobre lembranças e o poder que elas possuem, ao mesmo tempo que não deixa de estudar relações de uma família que poderia se destruir. fiquei a maior parte da projeção com uma sensação de este é um belo filme, mas falta algo a mais pra eu realmente gostar dele, e felizmente a conclusão supriu com este algo a mais.

e o término do dia veio com a duquesa, filme de época inglês que vi com expectativas de dormirei aos quinze minutos e provavelmente será outra fábrica de clichês em forma de filme de época, porra, por que eu vim ver isso?. porém, fui absurdamente surpreendido pelo filme, que faz um painel de uma época sem cometer todas as falhas que a maioria destes dramas épicos cometem. a relação entre a duquesa e o duque, que normalmente seria entre heroína e vilão, escapa muito bem deste estigma, e passa a sensação de eles são assim porque era como eles tinham que ser, não havia outra solução para nenhum deles. em certo momento, o duque tem uma fala que reflete brilhantemente este sentido de painel, e não de julgamento, que o filme trás.

sendo assim, acaba sendo bastante satisfatória a obra, já que esteticamente possui bastante qualidade e funciona sem causar irritação como drama histórico. e estatuetas douradas devem vir por aí.

vou parar por aqui, não estou gostando nada de como os textos estão seguindo hoje - me sinto um pouco pablo villaça, o que seria motivo para suicídio de forma dolorosa.

Canção de Baal, de Helena Ignez. Brasil. 3.5/4
Horas de Verão, de Olivier Assayas. França. 3/4
A Duquesa, de Saul Dibb. Inglaterra. 3/4



Escrito por Carlos Massari às 22h31
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mostra - dia 6


A Erva do Rato, de Júlio Bressane

passaram-se seis dias e a mostra está quase na metade. a situação começa a ficar complicada, o sono bate mais forte, os olhos pesam nas sessões, procura-se soluções alternativas para combatê-lo, a preguiça para escrever aumenta e chaga aos níveis alarmantes. porém, prometi a mim mesmo que todos os dias estarei aqui escrevendo, exceto quando não tiver um computador disponível para isso. e ainda tem muita coisa pela frente. muitos desbravamentos, coisas desconhecidas, clássicos, filmes esperados. a metade é só amanhã. e até lá, muita coisa nova pode ter acontecido.

hoje farei algo que ainda não tinha feito - falar sobre os filmes fora da ordem nos quais eles foram vistos. irei de trás pra frente, começando pelos dois que fecharam esta quarta-feira - cry me a river, curta, e 24 city, longa, do chinês jia zhang-ke. eles foram exibidos numa mesma sessão, no unibanco arteplex, o primeiro com 20 minutos, o segundo com 110. e foi um martírio.

zhang-ke é, entre os cineastas respeitados atuais, o que menos me causa interesse. ele basicamente faz retratos fiéis à situação da china atual, e os faz com intensidade - nas últimas quatro mostras de sp, pelo menos um filme seu eu assisti. mesmo o mais consagrado, still life, vencedor de veneza em 2006, não foi além de ser assistível. para este cineasta chinês, a dramaticidade não existe. ele sabe, e até razoavelmente bem, brincar com a linguagem. e ele sabe se repetir. e muito. minha família morava numa cidadezinha, mas a china é malvada e a cidadezinha virou uma hidrelétrica. depois, eu sou um costureiro explorado pela malvada china. por fim, e agora falamos de 24 city, eu trabalhava em uma fábrica e sustentava a minha família, mas agora ela vai ser trasformada em apartamentos de luxo pela china malvada.

vamos ilustrar por partes: a) jia zhang-ke não tem a menor dramaticidade: em certo momento de cry me a river, que como já disse, é um curta de ficção e não fala mal da china malvada, um homem diz a uma mulher que tinha sido sua namorada no passado que, nos últimos 10 anos, pensara nela todos os dias. e pronto, a cena é cortada. não há espaço para emoção. já vemos outras pessoas conversando. já vemos outras pessoas falando sobre o passado. a expressão não aparece, os atores sequer interagem. no cinema de zhang-ke, tudo é extremamente frio e seco.

passamos, então, para 24 city. eu li em algum lugar que, a esta hora, minha memória nunca se recordará qual, que zhang-ke é o eduardo coutinho chinês. pois isso é uma tremenda ofensa ao documentarista genial brasileiro. coutinho arranca, em suas entrevistas, o máximo possível das pessoas que estão na frente da câmera. histórias lindas, sensacionais, inacreditáveis. com o chinês, tudo é igual: meu nome é x, eu trabalhava na fábrica y, no cargo z. a fábrica fechou e agora eu tenho os problemas w. próximo. mudam-se as variáveis, permanece o discurso. incrível.

o fato é que o cinema de jia zhang-ke faz com que eu me sinta como se estivesse vendo documentários de três horas de duração sobre esquimós na aula de antropologia da imagem. e isso não é nada, nada bom.

mudamos, então, para o brasil. sim, o brasil, finalmente! e ele aparece bem nesta mostra, com a erva do rato, de júlio bressane. e eu não sei o quanto levar isso a sério. o fato é que é inegável que se trata de um filme engraçadíssimo, quase como uma paródia do cinema de arte ou coisa do tipo.

dois personagens, câmera estática na maior parte do tempo, diálogos longos sobre coisas absolutamente non-sense, um elemento colocado em cena atrapalhando a harmonia das coisas, um final bizarríssimo. a erva do rato começa e termina de forma singular, é uma grande demonstração de talento tanto por parte do diretor, bressane, quanto dos ators, selton mello e alessandra negrini. por mais que o filme tenha sido baseado em contos de machado de assis, segue a dúvida. é algo difícil, mas não deixa de ser muito, muito divertido.

o dia havia começado com um clássico, daqueles de cineastas indiscutíveis e alçados a posição de deuses cinematográficos: a rotina tem seu encanto, simplesmente o último filme da vida de yasujiro ozu. ali estão, e muito, a maioria das características do cinema deste japonês: a câmera baixa, demonstrando respeito aos personagens, o uso constante de plano e contra-plano nos diálogos, a sutileza, o bom-humor. é um filme leve, sensível, sempre com algum novo motivo para se apreciar. provavelmente, não tem como se desgostar dele. mas também não é algo de grandioso e perfeito, por assim dizer.

A Rotina tem seu Encanto, de Yasujiro Ozu. Japão. 3/4
A Erva do Rato, de Júlio Bressane. Brasil. 3/4
Cry me a River, seguido por 24 City, de Jia Zhang-Ke. 1/4



Escrito por Carlos Massari às 23h11
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mostra - dia 5


A Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase

a mostra de são paulo também tem seus lados odiáveis. são muito pequenos se comparados a todas as coisas boas que possui, como o clima, os filmes, os cineastas presentes, os debates, entre outros. porém, o maior de todos os fatores "me mate por favor" é o público. composto por variados e intermináveis tipos de pessoas, não seria um problema se o predominante não fosse aposentados que não tem mais absolutamente nada pra fazer da vida e resolvem ver filmes aleatóriamente empregando neles todos os preconceitos e visões formadas (ou deformadas) de setenta ou oitenta anos de falta de sexo e muito trabalho. qualquer coisa fora dos padrões, portanto, é desagradável. pessoas fora dos padrões são desagradáveis. filmes fora dos padrões são desagradáveis. personagens de filmes fora dos padrões, então, são combinações extremamente desagradáveis.

tive o desprazer de sentar ao lado de um grupo destes aposentados durante a primeira sessão desta terça-feira - o filme era sob controle, de jennifer lynch, filha de david lynch. não é, de modo algum, algo muito bom ou maravilhoso, mas isso fica para daqui a pouco. o fato é que temos lá entre os personagens principais alguns psicopatas, alguns drogados, enfim, pessoas que caem ali no quesito fora do padrão. e o filme também tem muito do tom lynchiano de imagens, na coloração e em alguns planos. portanto, prato cheíssimo para as mais diversas críticas: mas esse filme só serviu pra mostrar como hoje tá todo mundo louco!,. é, a diretora deve ser tão maluca como os personagens, como pode isso?. o que mais me irrita é o fato de ser este povo que eleva o boca-a-boca de trashisses do nível de o menino do pijama listrado e fazem com que eles ganhem até alguns prêmios no festival.

desabafo feito, falemos do que realmente interessa: os filmes do dia. já comecei a falar sobre sob controle - e jennifer lynch evoluiu tremendamente. ela era extremamente nova quando fez seu filme de estréia, encaixotando helena, há uma centena de anos atrás - como é bom ser apadrinhado! - mas foi algo tão desastroso, que a garota desapareceu. provavelmente é uma das piores coisas que já vi nestes anos de assistidor de filmes. agora, ela voltou, bem mais madura, trinta e sete anos na cara. e melhorou muito. mas muito mesmo.

se descartarmos aquela palavra básica chamada qualidade, sob controle pode ser descrito como uma mistura entre rashomon, assassinos por natureza e twin peaks. óbvio que não se compara a nenhum dos três, mas tem elementos muito fortes de todos eles presentes - seja a narrativa com vários personagens contando uma mesma história, seja um casal de psicopatas solto em uma estrada, seja agentes do fbi indo investigar crimes macabros em uma cidadezinha no meio do nada. é um filme que tem seus méritos, e eles não são poucos, e mostra, sobretudo, que o tempo fez bem a jennifer lynch. muito provavelmente ela nunca será nem metade do que o pai é, aliás, muito menos que isso, mas já dá para olhar sua carreira com olhos bem menos descrentes.

voltamos então à argentina, mostrando que realmente a produção dos nossos vizinhos é fortíssima - já são três filmes vistos de lá contra nenhum daqui nesta mostra (coisa que mudará amanhã), sendo que nenhum deles é desprezível. a bola da vez foi ninho vazio, de daniel burman, que segue extremamente fiel a seu estilo e a seu tema.

burman mais uma vez se apropria da classe média argentina - que poderia muito bem ser a brasileira, norte-americana ou de qualquer outro lugar do mundo - para contar histórias comuns do dia-a-dia. ninho vazio é sobre um casal de meia-idade que vê os três filhos saírem de casa, confrontando-se um com o outro, sozinhos, após muito tempo. a partir daí, vem a crise. a partir daí, vêm os problemas.

o filme é bonito, com cenas poéticas, alguns elementos presentes que sempre voltam e se referenciam, personagens bondosos, mas errantes. é um mundo todo construído, ao mesmo tempo que real, possível em cada casa de esquina, construído para ser cinematográfico, para se tornar em um filme de qualidade. assim como em seu filme anterior, as leis de família, burman insere uma quantidade proporcional de cenas dramáticas e cômicas, mantém tudo sob seu controle, não deixa o filme se libertar. e isso não é bom, e é provavelmente o que mais prejudica a obra deste cineasta - tudo tem sempre a mesma forma, os mesmos momentos, os mesmos finais, o mesmo tema. sempre os filmes são bonitos. sempre a classe-média tem conserto. é um cinema doce, um cinema que faz o mundo ter sentido. para burman, sempre depois da tempestade virá a bonança.

com atraso de um ano, chega à mostra a floresta dos lamentos, da japonesa naomi kawase, grande prêmio do júri em cannes 2007. e felizmente chegou, já que a mostra não poderia ficar de forma alguma sem exibir tal filmaço.

vale dizer, porém, que a floresta dos lamentos é um filme muito difícil, uma vez que acompanha, em mais da metade de sua projeção, dois personagens sozinhos, perdidos em uma floresta. esta floresta é toda metafórica, poética, lotada de significados. de um lado, temos uma mulher, vinte e poucos anos, cujo filho acaba de morrer, fazendo com que ela fique em estado deplorável. de outro, um senhor, já na casa dos sessenta ou setenta anos, que desde a morte de sua esposa, há trinta e três, ficou muito diferente e passou a precisar de cuidados médicos.

eles andam pela floresta. passam frio. passam pela correnteza. as árvores balançam. tudo é muito, muito verde, muito, muito bem cuidado. o vento é sempre presente. a natureza é o personagem principal. a floresta, na verdade, é o personagem principal. é ela que levará aos dois seres humanos o que eles procuram. é ela que, com suas metáforas e significados, poderá trazer a eles uma nova vida. ou não.

naomi kawase faz um belo filme, que merece ser acompanhado. mas sem sono, fica o recado.

Sob Controle, de Jennifer Lynch. EUA. 2.5/4
Ninho Vazio, de Daniel Burman. Argentina. 2/4
A Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase. Japão. 3.5/4 



Escrito por Carlos Massari às 22h16
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mostra - dia 4


Queime Depois de Ler, de Joel e Ethan Coen

sim, eu sei contar. não, eu não esqueci do pobre terceiro dia. a questão é que simplesmente não houve mostra para mim neste domingo inicial. o motivo é muito compreensível e obviamente será relevado por todos os pedaços de leitores - o clássico palmeiras x são paulo! ora, um jogo como este não podia ser preterido. não falarei muito sobre ele, nem texto, nem outras formas menos convencionais. a garganta ainda dói um pouco e o coração volta a bater mais compassadamente. voltamos ao normal e aos filmes. e já há um filme de extrema expectativa.

os irmãos coen, ícones do cinema norte-americano "alternativo" atual, acabaram de nos apresentar aquela que provavelmente é sua maior obra-prima, onde os fracos não têm vez. este filme, que apesar de manter características típicas dos cineastas, como os toques de humor negro, o cenário árido e inóspito e atores que sempre os acompanham, era um tremendamente pessimista anti-faroeste, refletindo ao mesmo tempo sobre o cinema e a sociedade americana atual. centenas de prêmios e elogios na bagagem, é hora de se divertir.

queime depois de ler é justamente isso: um filme para se divertir. seja para quem dirigiu, escreveu, atuou ou assistiu. o tempo todo temos um tom de completa leveza no ar, com piadas soltas que fazem até um assassinato a marteladas ser hilariante - coisa normal pra quem já alcançou o mesmo efeito com um moedor de carne. o elenco todo, formado por amigos de joel e ethan como george clooney, john malkovich, brad pitt e frances mcdormand está devidamente caracterizado de modos que pouco se poderia esperar, principalmente pitt, que se transformou em um instrutor de academia pouco dotado de cérebro que acaba tendo acesso ao que imagina ser documentos confidenciais da CIA.

o filme todo é uma extrema bagunça de personagens, mas uma bagunça orquestrada, se é que vocês me entendem. eles transitam pelas situações e pelos cenários, se encontram e desencontram, fazem sexo uns com os outros, e muitas outras coisas. a trama tenta ser entendida por dois oficiais da CIA. eles não conseguem. o público, consegue, e mais importante que isso, ri muito.

hora da transição, e transição extrema: passamos de um filme feito para se divertir por cineastas consagrados com elenco estelar para um primeiro filme que precisou da ajuda de wim wenders para ser concluído, uma vez que a produção estava travada devido à falta de recursos. nas palavras do próprio wenders, apresentando o filme na sala em nome do diretor, não se tratava de um filme de pouco orçamento, e sim de um filme de nenhum orçamento. pois é. mas felizmente, três dias de chuva foi concluído.

é uma obra que revela marcas de primeiro filme, mas muito mais claramente que isso, revela marcas de talento absoluto por parte de seu diretor, michael meredith. em primeiro lugar: trata-se de algo muito, mas muito wenderiano. temos personagens bêbados e alcóolatras perdidos no mundo, cenários, enquadramento e luzes, trilha sonora, tudo parecendo sair diretamente de um filme de wenders - não à toa que ele gostou muito do material e acabou ajudando na produção. a sinopse é bastante clichê: vários personagens e histórias paralelas durante três dias de chuva em cleveland. chuva muito forte. chuva sem parar.

algumas sequências são muito, muito boas, mas isoladas. algumas histórias contadas são bastante legais, e causam muito interesse. outras, parecem simplesmente deslocadas. meredith conduz tudo de forma bem sutil, sendo cuidadoso e leal com seus personagens. por mais que muitos traços ainda façam do filme bastante imperfeito, repleto de momentos e soluções que não seriam os melhores colocados, ainda é uma obra com belos momentos. e ficaremos de olho em michael meredith.

atom egoyan surgiu como grande promessa do cinema mundial na década de 90 com filmes como exotica e o doce amanhã. aos poucos, porém, foi gradualmente passando ao status de decepção, fazendo coisas cada vez mais inexpressivas como felicia's journey, ararat e where the truth lies. agora, com adoração, é provável que tenha chego ao fundo do poço, visto que este aqui já não é mais simplesmente inexpressivo, é ruim mesmo.

trata-se de uma salada mista de temas e enredos, apesar de centrados nos mesmos personagens - o filme quer, ao mesmo tempo, contestar etnias e religiões, falar sobre literatura, relações familiares e investigar um fato do passado. estas quatro vertentes estão lá, e diga-se que é um filme muito sólido em sua estrutura narrativa básica. os problemas são que, em primeiro lugar, egoyan é um desastre no sentido estético, e segundo, falta um modo de prender o interesse do público - apenas a solidez não basta.

acaba sendo um filme que, mesmo não sendo aquilo que é convencionalmente chamado de lento ou devagar, é muito difícil de acompanhar quando se está com sono ou algo similar - a famosa mão pesada de um diretor. todas as tramas falham em causar o interesse, em levar o público a se envolver com o tema. e egoyan caminha em sua franca decadência.

Queime Depois de Ler, de Joel e Ethan Coen. EUA. 3/4
Três Dias de Chuva, de Michael Meredith. EUA. 2.5/4
Adoração, de Atom Egoyan. Canadá. 1.5/4



Escrito por Carlos Massari às 01h10
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mostra - dia 2


Leonera, de Pablo Trapero

como pode ser percebido pelo texto aí embaixo, a sensação deixada pelo primeiro dia foi de completa decepção. nem mesmo os dardennes trouxeram algo ao seu nível, apesar de ainda ser um trabalho bastante decente. sendo assim, nada melhor que, para começar o segundo dia, ir para uma retrospectiva. e retrospectiva de um dos tremendos deuses do olimpo cinematográfico, ingmar bergman.

Música na Noite não poderia começar mais bergmaniano. Uma série de delírios, imagens fortes e trabalhadas surgem à tela, como um homem se arrastando na lama. Logo, tudo isso será esquecido, Bergman entrará numa normalidade e narrará uma história romântica comum, entre um músico, que fica cego após um acidente, e uma jovem empregada. É um filme muito bonito e ajeitado, tanto narrativamente quanto esteticamente, apesar de obviamente ainda não alcançar a perfeição pela qual o cineasta sueco viria a ser conhecido nesse último campo.

O problema é: Este é um filme de 1948, provavelmente um dos cinco primeiros da carreira de Bergman, e, para alguém que filmaria jogos de xadrez contra a morte, trajetórias épicas de famílias pelo vida, romances lésbicos na década de 60, entre outros, uma historinha tão convencional e bobinha acaba sendo um soco no olho. É algo que a Hollywood atual nos "presenteia" quase que diariamente com. A diferença toda está lá, no talento do diretor, que transparece, mas ainda transparece com dificuldade, como se fizesse força para pular pra fora da fragilidade do filme. E até consegue pular, mas ainda sem muito destaque.

O tema gravidez/maternidade/aborto está em extrema alta nesta mostra, e aparece já pela terceira vez em dois dias (e aparecerá na mais intensa delas ainda neste dia, mais tarde) em A Princesa do Nebraska. Este filme chinês passado nos Estados Unidos nos apresenta a uma jovem perdida que carrega um filho, procura o pai, conhece uma prostituta, se envolve com ela, pensa em abortar, enfim, vive suas situações todas de forma até inesperada. Wayne Wang, diretor que tem ainda outro filme passando em São Paulo, Mil Anos de Orações, porém, não carrega a mão, apesar do que possa parecer por esta descrição: O aspecto é leve, as cores são alegres, o filme, em si, passa alegria. E é silencioso, muito silencioso. Mas não se trata de um silêncio tedioso/contemplativo, como o de Liverpool, e sim um silêncio de uma solidão escolhida, quase agridoce.

Digamos que falta só algo que seja mais decisivo para o filme ser considerado realmente bom. Ele simplesmente passa, sem maiores interesses, sem ficar na memória. É completamente esquecível, apesar de ser um filme que possa ser encaixado em um horário vazio para matar duas horas.

Las Meninas, filme que abriu a minha mostra, ganha um companheiro no papel de bomba indefensável: Varsóvia Sombria, segundo longa de um dos principais de diretores de fotografia atuais - E ele até começa com pinta de grande filme, com uma sequência muito boa passada em um bordel, com imagens belíssimas, música bem colocada, lindas mulheres, diálogos bem construídos, enfim, algo realmente bem orquestrado e promissor. Depois...

Este é um filme daqueles que não querem ser confusos, mas dos quais não se entende absolutamente nada. É uma trama muito, muito pretensiosa - E eu sempre digo que ser pretensioso é bom, mas nesse caso... - envolvendo política, sequestros, sexo, drogas, entre outros. Não se sabe se a intenção de Christopher Doyle é fazer críticas mais sérias à sociedade polonesa, à sociedade mundial, simplesmente fazer um filme misterioso ou tirar sarro do espectador. Sabe-se apenas que, qualquer que tenha sido a intenção, o resultado foi desastroso.

Em A Princesa do Nebraska, há uma cena na qual a cidadã grávida está deitada, em um sofá, acariciando a barriga, esperando e sentindo o bebê. Horas depois, veríamos uma cena contrária, radicalmente contrária, na qual a personagem principal de Leonera está deitada, grávida, socando sua barriga, após ser presa pelo assassinato do namorado e pai da criança.

E Leonera é o primeiro grande filme da mostra, após oito tentativas. O tema maternidade é explorado à máxima potência, em um filme que analisa essa situação em uma crescente, que vai do ódio à situação (cena citada acima), passa pelo começo de uma mudança, pela dependência e pelo extremo amor e proteção. Julia, presa no pavilhão para grávidas e mães de crianças novas de uma penitenciária argentina, passa a apoiar-se no filho, ver nele a única razão para sua vida, e assim cria-se uma situação mútua que pode ser considerada como muito saudável ou nada saudável.

É um filme com estética muito fria e seca, que usa música em duas ou três cenas - E é aí que entra minha única ressalva ao filme, já que o uso da música, nessas poucas situações, é extremamente animado, música realmente infantil, o que quebra consideravelmente a unidade da obra. Mas, ignorando-se esses pedaços, trata-se de algo muito forte, onde mais uma vez as imagens e o som ambiente contam a história buscando levar tudo para um tom mais escuro, mais dramático. Leonera é um grandioso drama, por assim dizer. Mais que isso, ainda é bastante complexo nas questões que levanta, sobre a maternidade, sobre o cárcere, sobre a sociedade argentina e latino-americana.

Pablo Trapero e sua esposa e atriz principal do filme, Martina Guzman, estavam na sala e participaram de um debate após a exibição. Obviamente houve uma enxurrada de perguntas imbecis, mas ficou claro que Trapero é um artista diferenciado e com plena consciência do que faz. E, após sete filmes que variavam entre o bonzinho e muito ruim, a mostra finalmente trouxe sua primeira marca definitiva em 2008.

Música na Noite, de Ingmar Bergman. Suécia. 2.5/4
A Princesa do Nebraska, de Wayne Wang. China. 2/4
Varsóvia Sombria, de Christopher Doyle. Polônia. 1/4
Leonera, de Pablo Trapero. Argentina. 3.5/4



Escrito por Carlos Massari às 16h01
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mostra - dia 1


O Silêncio de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

2008 tem sido apontado na maioria dos textos e comentários já produzidos mundo afora como um ano trágico para o cinema. Mesmo nos principais festivais, nada parece ter realmente agradado, coisa que é bem curiosa se considerarmos que há vários mestres em atividade - dardennes, wenders, coens, assayas, entre outros. a mostra de cinema de são paulo começa, ainda por cima, com a ausência dos vencedores de cannes (entre les murs) e veneza (the wrestler), o que transforma a maratona destas duas semanas, mais do que nunca, em um trabalho de garimpo - procurar, entre desconhecidos, obras que realmente animem, tragam algo de bom para o cenário cinematográfico, sem deixar de apreciar as obras dos grandes mestres.

feita essa pequena e clichê introdução, vamos ao que interessa: a mostra já começou realmente com cara de mostra, com maratona, com filas, com atrasos, com problemas nas projeções, com crachás balançando, comercial da petrobrás que se repetirá exaustivamente nestas duas semanas, xingamentos, reclamações, assassinatos, torturas e quedas de naves espaciais. ok, esqueçamos o final da lista. apesar de que teria sido preferível ser atingido na cabeça por uma nave espacial que assistido o primeiro filme escolhido para esta edição.

las meninas foi parte do clássico trabalho de garimpo à base de sinopse, feito normalmente todos os anos, mas que nesse obviamente será ainda ampliado. o triste é entrar na sala de cinema e descobrir que a) o filme não tem absolutamente nada a ver com a sinopse que fora divulgada e, b) o que está sendo exibido na tela é algo completamente bizarro. bizarro no mal sentido, claro. há um casal de velhos em algum lugar, comentando sobre assuntos aleatórios, receita de sabe-se lá o que, a vida de sabe-se lá quem. eventualmente, muda-se o foco para alguma outra situação envolvendo outras pessoas. e tudo é muito, muito inexpressivo.

como em todos os filmes ruins e não divertidos (afinal, existem os ruins, mas que fazem o tempo passar), foi necessário arrumar alguma diversão em outro lugar, algo para ocupar a mente. no caso, a escolha foi contar a quantidade de pessoas que deixavam a sala e fazer apostas imaginárias envolvendo este número e o tempo de filme passado. 30 minutos, 20 pessoas. o ritmo foi aumentando. até que eu não resisti e tive que seguir o fluxo.

para a segunda sessão, permanecemos na antiga união soviética, mas mudamos da ucrânia para o cazaquistão. desta vez, porém, havia alguma referência sobre o filme - tulpan - vencedor da un certain regard em cannes, mostra dedicada a jovens cineastas. este é um filme que tem três elementos - infinita areia, milhares de ovelhas e meia dúzia de pessoas. passa-se em uma estepe cazaque, onde um rapaz deseja se casar com a única moça do local, mas ela o rejeita devido ás suas orelhas.

sim, é isso mesmo - o filme é o drama de um rapaz tentando fazer a mulher amada aceitar as suas orelhas. e com ovelhas, muitas ovelhas, e areia, muita areia. ovelhas e orelhas. mas, acreditem, tudo isso é divertidíssimo. o tempo todo é mantido um tom muito singelo, bem como já parece pela premissa, que se junta às situações engraçadas provocadas em vários momentos e causa uma sensação bem agradável. sim, é um filme agradável, apesar da areia, e do vento, e das orelhas. nada de espetacular, mas agradável.

passamos do agradável ao propositalmente desagradável - irmãos dardenne e suas tragédias sociais, desta vez com o silêncio de lorna, falando sobre imigração ilegal, vício, consciência, dores psicológicas. eles, que com esse estilo de fazer crônicas sobre a vida moderna já conseguiram duas palmas de ouro (rosetta e a criança), mantêm como sempre o mesmo modo de fazer cinema, o mesmo tema, o mesmo enfoque, a mesma câmera, o mesmo silêncio, a mesma forma seca de estruturar a narrativa.

o filme, porém, não tem o mesmo impacto dos anteriores. os dardennes não são cineastas violentos, no estilo cenas muito fortes, vamos foder com os personagens e com o público, yeah!, pelo contrário, são extremamente humanistas e sempre tratam seus protagonistas com carinho. aqui também não é exceção. a trama se desenvolve corretamente, o filme todo, aliás, merece este adjetivo - é correto, e é muito coerente com toda a obra destes irmãos belgas. sozinho, não alcança o valor esperado. em conjunto, é outra peça do importante quebra-cabeças social que estes cineastas vão montando.

para encerrar o primeiro dia, o gelado liverpool, de lisandro alonso. gelado não só porque a paisagem é neve por todos os lados, todos os cantos e em todos os momentos, mas pela estrutura do filme, dos planos, dos silêncios. personagem principal comendo, 5 minutos. personagem principal andando na neve, se afastando da câmera, 10 minutos. personagem principal olhando uma ovelha (sim, elas estão de volta!), 20 minutos. e assim por diante.

qualquer pessoa que já conversou comigo sobre cinema sabe que eu gosto extremamente de filmes com esse estilo de planos longuíssimos, de contemplação de imagens e etc. aliás, as imagens aqui são belíssimas, o filme tem uma fotografia realmente de respeito. o problema é aquela clássica frase chavão de público cinemark. explico: um senhor, aproximadamente setenta anos, sentado ao meu lado na sessão, ao término do filme levanta e diz: mas não acontece nada no filme todo! pois é. vejam só, não era um público cinemark, era um senhor de aproximadamente setenta anos, frequentador de mostras de cinema! entendida a gravidade da situação?

o fato é que nada no filme prende a atenção. todos esses planos intermináveis com imagens bonitas simplesmente não contam história nenhuma. o filme passa, os personagens passam, e o sentimento é um só: e daí?. lisandro alonso tem sem dúvida uma tremenda concepção cinematográfica e imagética, mas falta melhorar o outro campo.

Las Meninas, de Ihor Podolchak. Ucrânia. 0/4
Tulpan, de Sergei Dvortseyvov. Cazaquistão. 2.5/4
O Silêncio de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Bélgica. 2.5/4
Liverpool, de Lisandro Alonso. Argentina. 2/4



Escrito por Carlos Massari às 03h29
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um filme paulistano e outro nem tanto

fazia alguns zilhares de anos que o brasil não colocava dois filmes em cannes - por mais que dizer isso para 2008 também seja um tanto controverso. com o respeito internacional alcançado por fernando meirelles e walter salles, porém, isso ficou relativamente mais fácil e acabou acontecendo. os dois filmes - ensaio sobre a cegueira (blindness), de meirelles, e linha de passe, de salles, são amostras das contradições paulistanas, da tão clara divisão que essa cidade possui - só que refletindo no cinema e gerando, mais que duas cidades, dois cinemas.

meirelles é autor de nada menos que cidade de deus, filme que provavelmente aumentou infinitamente o respeito estrangeiro ao que se produz por aqui, conseguiu indicação para oscars importantes e até hoje figura entre os líderes do top do IMDB. depois disso, resolveu levar à tona a denominação tão na moda de diretor mundial e vem sendo um peregrino e fazendo filmes em várias cidades, tão complexamente centrados em tantos lugares. blindness é o maior exemplo que ele já conseguiu disso, passando-se em uma metrópole sem nome, filmado em várias cidades, passa o tempo todo um ar completamente estranho. é um filme falado em inglês, baseado em uma obra portuguesa, de um cineasta brasileiro, filmado em são paulo, montevidéu e toronto. mais cosmopólita, impossível.

uma produção de tamanho porte realmente põe em xeque o que havia sido dito lá em cima sobre dois filmes brasileiros em cannes, visto que só o diretor e a locação principal é originária daqui. mas ampliando o raciocínio, seria melhor que nem tivesse ido para lá, visto que a má recepção é plenamente justificável - o filme sofre de um mal muito comum às adaptações literárias, que é parecer sempre estar usando a linguagem errada. a imagem nunca consegue passar o que se esperava, e mais que isso, é complicadíssimo falar em imagem em um filme onde todos os personagens estão cegos. temos aí provavelmente um dos maiores problemas linguisticos que o cinema já encarou.

as soluções encontradas absolutamente não são satisfatórias, e o que sobra para blindness é a parábola fantástica criada por josé saramago. mas até aí, ela é toda literária, e não cinematográfica. talvez a superprodução toda tenha sido errônea aqui, e o ideal fosse simplesmente uma adaptação mais simples, centrada nos personagens e sentimentos. a são paulo mostrada, das grandes avenidas, do céu tão modificado para demonstrar a parte classe-média burguesa que a cidade demonstra pouco cumpre seu papel, e meirelles tem um primeiro choque à sua reputação tão bem criada por cidade de deus.

do outro lado, linha de passe vem de walter salles, cineasta que eu sempre tive problemas em aceitar - como já dizia aquela sensacional comunidade do orkut, o brasil é muito bonito quando você é milionário e mora na frança. isso vale tanto para a seca e a miséria nordestina (central do brasil, abril despedaçado), como à periferia paulistana explorada nesse linha de passe. a diferença é que salles alcançou um ar de humanidade que nunca havia conseguido, chegou a um novo patamar no seu fazer cinematográfico.

linha de passe poderia cair nos mesmos problemas que centenas de outras produções mundiais acabam caindo ao pegar a mesma estrutura narrativa e falar de temas parecidos - são histórias que se desenvolvem mutuamente, no caso, sobre quatro irmãos e uma mãe, moradores de uma favela paulistana, todos passando por seus problemas pessoais, mas mostrando seus sonhos e suas ambições. temos o aspirante a jogador de futebol, o motoboy que lentamente emaranha pelos caminhos do crime, o crente e o caçula que procura pelo pai. são incontáveis as armadilhas que poderiam ter destruído esta obra.

vejam só: estereotipação de personagens, sucessão de tragédias feitas por elementos que estão ali só pra isso, reviravoltas pouco palpáveis com caminho para o choque, finais fáceis, pieguice e melosidade. é com extrema habilidade que salles realmente não cai em NENHUMA. muitas vezes pensa-se que algo aconteceria, quando como um pitbull aparece em certo momento do filme próximo a uma criança - um iñarritu ou paul haggis da vida e CERTAMENTE seria feito o raciocínio sensacional pitbull + criança = OBA, UMA TRAGÉDIA A MAIS PRO MEU FILME! felizmente, não há nada disso.

o filme é de uma poesia intensa e é lindamente sobre a vida. sobre a vida real, mas real mesmo, sobre pessoas que são extremamente complexas, guardam suas virtudes e seus defeitos muito bem guardadas mas, muitas vezes, não podem escondê-los. os dilemas emocionais de todos estão lá, nenhum deles é resolvido, a permanência de tudo é que faz do filme e desses personagens tão reais, tão próximos do público. não é mais um filme brasileiro sobre pobres, porra, por que brasileiro só faz filme sobre isso? só faltou ser no nordeste!, é um filme sobre pessoas, no caso, sobre aquelas pessoas.

o céu paulistano nesse caso é totalmente cinzento, poluído, real. tão ao contrário do céu maquiado de meirelles e blindness. tão ao contrário da literatura mal-filmada, em linha de passe o que se vê é cinema de primeiro nível.

e não percam, dentro de duas semanas, portanto, a partir da sexta-feira 17, cobertura completa da 32ª mostra internacional de cinema de são paulo.



Escrito por Carlos Massari às 22h42
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imagens não morrem, capitão

é absurdamente maravilhoso ver um gênio voltando à ativa mesmo sendo ridicularizado em seu país.

na imagem, zé do caixão confronta a fé. e imagens nunca morrem.



Escrito por Carlos Massari às 21h23
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Em Pedaços

três filmes alugados na última semana.

naçao fast food, richard linklater

cineasta sempre reconhecido por suas sutilezas e qualidades nos dialogos, seja na comédia (dazzed and confused, escola de rock), ou no romance/drama (antes do amanhecer/por do sol, tape), linklater me parece extremamente deslocado nesse filme que será o deus maximo dos vegetarianos chatos aimeudeusdoceunaomaltratemosanimais. o filme ainda tem uma estrutura narrativa interessante, mas estranha, ao acompanhar um personagem como se este fosse o "principal" e depois esquece-lo completamente, ligando a trama a outras figuras que sao explorados/exploradores da industria do fast food e prosseguindo com elas. avril lavigne em uma participaçao constrangedora.
duas horas rodadas por um puta cineasta pra chegar-se a conclusao de que se come cocô quando se vai ao mcdonalds. enfim...

sweeney todd, tim burton

burton me parece bem seguro ao filmar essa fábula sanguinolenta sobre vingança e paixão, ainda mais com todo o trabalho técnico fodido que normalmente acompanha seu trabalho - aqui está tudo muito bem definido, seja a fotografia que realmente é muito sombria, seja a consistência estilizada do sangue - mas com uma estilização apropriada para o filme. tudo iria muito bem se o musical não começasse a cansar fortemente lá pela uma hora e pouco de duração, e se não tivesse um personagem muito constrangedor com cara de menina. mas é um trabalho bastante digno do mr. burton.

coisas que perdemos pelo caminho, susane bier

filme extremamente malhado pela crítica, coisa que achei estranha, principalmente conhecendo o excelente brothers, trabalho ainda na dinamarca da cineasta susane bier. aqui, o tema se repete com brutalidade - mulher perde o marido e coloca outro homem dentro de casa para ocupar seu lugar. e seres humanos são patéticos, como o filme bem vai mostrar. sem exceção. tem algumas cenas bem construídas, uma dramaturgia que até alcança sua força, mas bier é outra que me parece deslocada - brothers é um filme todo forte, cheio de imagens e sons impactantes, e aqui parece ter sido imposta a dar uma singeleza esquisita a seu trabalho. mesmo assim, não acompanho a maioria.

e puta que pariu, desde quando in the fire é pelo caminho?

american gangster, ridley scott

ridley scott? duas horas e meia? só podia ser um surto na hora de alugar isso. nao tive coragem pra ver.



Escrito por Carlos Massari às 02h25
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Wall-E

não gosto muito de definir filmes com adjetivos que normalmente caberiam melhor a uma pessoa. afinal, filmes são obras de pessoas. prém, até que ponto pode-se aplicar isto a Wall-E (idem, Andrew Stanton, 2008), esta pequena jóia da Pixar? minha mão coça desde que escrevi lá em cima o título do texto para chamá-lo de corajoso. é um filme corajoso, eu penso. mas corajoso não seria seu diretor? é, digamos que sim. ou não, já que seu filme anterior é procurando nemo, muito bonitinho, bem-feitinho, mas que em nada escapa da tradicional animação infantil norte-americana. questão complicada...

vamos ao que interessa: Wall-E tem uma meia hora inicial estarrecedora. lembra os momentos mais sombrios de Extermínio, Madrugada dos Mortos, entre outros belos exemplares do cinema recente de humor. ok, a comparação mais cabível seria com Eu Sou a Lenda, mas queria obras de maior qualidade. temos lá um personagem, sozinho, em um planeta devastado. é um robô catador de lixo. na verdade, ele tem uma companhia - uma barata. ele fica com sua rotina de utilizar seu pequeno tamanho para limpar a imensidão de detritos deixados pelos seres humanos. faz isso há séculos. e, principalmente, é um personagem humanizado - guarda coisas, assiste a musicais antigos, preocupa-se e cuida de seu animal de estimação. este começo é melancólico e desesperador. principalmente tratando-se de um filme que, teoricamente, é feito para crianças!

e é aí que está o ponto - Wall-E, bem mais que uma típica animação infantil, vai fundo em uma ambientação que se aproxima do terror. tem-se lá, é verdade, gags do robozinho que bate em alguma coisa, cai, se atrapalha, mas ele está sozinho! na terra devastada! sem diálogos! a própria opção de linguagem do filme é ousada, uma vez que não parece estar muito disposta a abrir espaço para a diversão e a felicidade das pobres crianças nesta meia hora inicial. e a força que ele alcança é incrível.

depois, vamos ter uma histórinha de amor muito bonita e bem construída envolvendo o personagem principal e uma robozinha que desce ao planeta em uma missão, o roteiro vai se desenvolver e o filme vai se aproximar do habitual - mas sempre com tensão em alta, imagem muito bem cuidada, saídas interessantes. e sem largar o pessimismo, mesmo quando se colore e se enche de diálogos. afinal, o futuro da humanidade, mesmo que haja uma pontinha de esperança para ele, é visto de forma calamitosa para boa parte da projeção. e isso, sinceramente, nao deve vir muito ao caso desta análise.

muita gente vai achar um monte de significados intensos para o filme, olha como a humanidade está perdida, olha como precisamos cuidar do meio ambiente, olha como as plantinhas são lindas, olha como o amor é lindo, a vida é linda, o cu da vovozinha é lindo. enfim, não vejo nada disso. quer dizer, está tudo lá, mas porra, quem é que vai se preocupar com isso num filme que tão claramente se preocupa em ser intensamente uma história de amor? e em um filme que se preocupa intensamente em mostrar uma sensação de desespero, de solidão brutal para um robô-humano? e com toda esta coragem, ainda? ah, por favor, esqueçamos a ecologia e as falsas morais.

fica no ar uma sensação de plena satisfação. e de ter-se visto a animação do século, até agora, talvez junto com a viagem de chihiro e toda sua poesia delirante.



Escrito por Carlos Massari às 02h41
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maio

o melhor mês do ano.
não que isso signifique muita coisa.


027. A BESTA DEVE MORRER (CLAUDE CHABROL, 1969) ***
028. FALSA LOURA (CARLOS REICHENBACH, 2008) ***1/2
029. O SONHO DE CASSANDRA (WOODY ALLEN, 2007) ***
030. UM BEIJO ROUBADO (WONG KAR-WAI, 2007) ***
031. DESPEDIDA DE ONTEM (ALEXANDER KLUGE, 1966) **1/2
032. WILLI TOBLER E A QUEDA DA SEXTA FROTA (ALEXANDER KLUGE, 1972) **1/2
033. CADA UM COM SEU CINEMA (vÁRIOS, 2007) **
034. COMO FESTEJEI O FIM DO MUNDO (CATALIN NICULESCU, 2006) **
035. CÂMERA OLHO (DZIGA VERTOV, 1924) ***
036. MONIKA E O DESEJO (INGMAR BERGMAN, 1953) **



Escrito por Carlos Massari às 00h04
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