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sobre opostos

anticristo, de lars von trier
amantes, de james gray


primeiro ponto: não sou o maior admirador de lars von trier. longe disso. dois filmes excelentes, os idiotas e as cinco obstruções; um muito bom, europa, e todos os demais entre medíocre e muito ruim, incluindo aí dançando no escuro, ondas do destino, dogville e o escambau. problema básico: é um cinema de vitimização, de martírio dos personagens em troca de absolutamente nada. as pessoas estão lá para apanhar, sofrer, ser mutiladas e espancadas, como se o diretor fosse um deus sádico rindo e não dando a menor oportunidade para que aqueles seres da tela pareçam minimamente reais. tudo é maniqueísta e faz parte de uma encenação de uma mente esquisita.

segundo ponto: a dedicatória a andrei tarkovski. o nosso caríssimo cineasta soviético filmava a natureza como ninguém, e nunca foi só natureza: era uma natureza com vida, com alma, encarnada e cheia de metáforas. stalker e o sacrifício, sobretudo, que o digam. von trier, sem a menor dúvida, tenta fazer o mesmo aqui, e a premissa de anticristo é muito boa: a dor, o luto, de um casal que perde o filho pequeno em uma floresta que ganha vida e de forma maléfica, influenciando (por que não, significando) as ações dos dois. ok. não tenho a menor dúvida que tarkovski transformaria isso numa obra-prima. o que von trier fez é simplesmente lamentável.

a impressão básica é que von trier não está, em momento algum, preocupado em fazer cinema - tanto é que não se nota nenhuma preocupação com o cuidado dos enquadramentos, da profundidade de campo, da mise-en-scène. quase toda a parte fora da floresta do filme é gravada com uma câmera irritante que se move em closes nos rostos do personagem em uma luz demasiadamente escura, o que pode-se argumentar, faz parte do terror, mas também é absolutamente anti-cinematográfico. a preocupação é o espetáculo, a polêmica. lobos falam. sexo explícito com gozo de sangue. clitóris sendo decepado. fica um vazio. as imagens dizem apenas que você é um idiota por estar vendo aquilo e está sendo sacaneado.

disseram a lars von trier que ele era o melhor diretor do mundo. ele acreditou. anticristo é o resultado disso, com toda a sua prepotência, esquecendo que, antes de uma banalização de imagens fortes, isso é cinema.

é justamente o contrário do que acontece com james gray. jovem cineasta norte-americano que transita na fronteira entre o comercial e o autoral, mas com muita qualidade dos dois lados. gray não quer chocar, não quer polemizar, espetacularizar. gray quer contar uma estória. e seu two lovers é storytelling puro, é cinema puro. mais que isso - é cinema de qualidade e extremamente bonito.

gray escreve e dirige seus filmes sem grande distribuição no mercado americano, fazendo mais sucesso entre os núcleos de arte. viaja entre gêneros - ano passado lançara o policial we own the night, agora vem com esse romance. lembra o que há de mais clássico nesta arte: a composição de planos é perfeita, há reflexos, há silêncios, há preocupação com cada elemento em cena, com cada ponta do roteiro. olhando-se do ponto de vista crítico, não existe absolutamente nenhum defeito. tudo isso, porém, não seria suficiente se não houvesse o ponto principal, que mais uma vez é oposto a von trier: o humanismo dos personagens.

trata-se de um triângulo amoroso centrado no personagem de joaquim phoenix - ele ama uma mulher que não o ama, ele é amado por uma mulher que não ama. ele sai com ambas. tem seus momentos com ambas. tudo é natural, todos os personagens são vistos sem nenhum julgamento pela direção e têm sua humanidade clara, à flor da pele: é latente o envolvimento entre público/personagem. e é por isso que two lovers emociona tanto: personagens com tanta construção em imagens magnificamente cinematográficas. aprenda, sr. von trier.



Escrito por Carlos Massari às 02h08
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