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mostra 2009 - dia 1


Seguindo em Frente, de Hirokazu Kore-eda

eu gostaria de poder chegar aqui no primeiro dia de uma mostra e dizer que não houve nenhum problema técnico. a desorganização é sempre assustadora, com algo acontecendo pra atrapalhar toda a programação de uma sala ou mais. hoje, felizmente, não foi nada referente a atrasos, e sim o sistema de legendas eletrônicas do espaço unibanco que não funcionou, pelo menos enquanto eu estava por lá. o primeiro filme, 'ramirez', era espanhol, e o segundo, 'aviões de papel', húngaro. pra nossa extrema sorte, este tinha embutidas legendas em inglês. seria melhor que não tivesse. pelo menos poderíamos nos divertir brincando de decifrar o que os personagens falavam pra fazer o tempo passar mais rápido.

'ramirez' e 'aviões de papel' nem merecem textos separados. são dois filmes que sofrem dos mesmos infinitos problemas. muitos desses problemas são coisas comuns dentro do cinema, desde sempre. personagens sem construção nenhuma, cujas ações são soltas, vão do nada ao lugar nenhum. no caso do filme espanhol, a situação é absolutamente inexplicável, visto que ele é todo centrado no personagem principal, ao contrário do húngaro que é uma junção de oito, nove ou vinte - não tive muita paciência pra me preocupar com isso - estórias diferentes, todas contadas com ceninhas rápidas de um ou dois minutos e pulando novamente pra seguinte. o genial aqui é a falta de necessidade de existência de algumas (95%, digamos) desses micro-estórias. uma delas, exemplificando, é sobre um escritor que não consegue escrever. passagem um: ele sentado à máquina. passagem dois: ele levanta e faz um lanche. passagem três: ele senta de novo, mas o telefone toca. e assim por diante. até o final. nada, absolutamente nada, acontece. eu entenderia até uma negação da narração tradicional, mas claramente não é a intenção do excelentíssimo sr. diretor.

'ramirez', sim, é uma obra que tem uma construção atípica de narrativa, uma vez que, no começo, as cenas aparentemente não tem maior ligação umas com as outras. vemos o personagem título traficando drogas, depois, saindo com uma mulher, depois, visitando a mãe, depois, tirando fotos. essa é a apresentação do personagem. não existe, porém, coerência psicológica. os atos não batem, não existe construção. e, depois, ainda a não-narrativa é abandonada. uma linha comum passa a ser seguida. não que isso o torne melhor ou pior.

tudo bem, seriam apenas dois filmes ruins se não houvesse o fator principal de irritação: a câmera. sabe-se lá porque, mas nos dois casos há uma incapacidade de mantê-la quieta. vamos descrever: câmera chega a uma imagem onde está o centro da ação. câmera para, ação decorre. de repente, DO NADA, sem mudança nenhuma do centro da ação, a câmera treme, se mexe, se movimenta, sem sentido nenhum. é simplesmente um tique dos diretores, dos operadores de câmera ou de alguém da equipe. mas em ambos os filmes, isso ocorre com frequência. além disso, 'ramirez' é consideravelmente mal-iluminado, mas depois de tanta coisa, isso já nem faz tanta diferença.

desci do espaço unibanco pro frei caneca com a esperança do dia ser salvo por still walking, o novo kore-eda, cineasta que eu tinha uma admiração relativa, principalmente por depois da vida e ninguém pode saber. ok, nem precisava ser um GRANDE filme, eu já estaria feliz em não ver uma câmera com epilepsia, o que seria pouquíssimo provável de se repetir pelo passado da obra do diretor. alívio extremo: 120 minutos com uns 118 de câmera estática. tudo devidamente compensado. meus olhos agradecem.
(e não me entendam errado, eu admiro - e muito - movimentos bem-feitos de câmera, isso é uma mera questão de opção dos autores e não tem nada a ver com a qualidade do filme, EXCETO quando se deu ecstasy pra câmera antes de iniciar as gravações).

tá, isso é o de menos no caso de 'still walking', apesar de ter a ver com a homenagem a yasujiru ozu, que está contida também - e sobretudo - no tema e seu desenvolvimento. temos aqui uma reunião de família, três gerações - avô e avó, dois filhos, cônjuges, três netos. preparativos pro almoço, chegada dos filhos, diálogos. personagens sendo construídos tijolo a tijolo. tensão surgindo do desenvolvimento deles. personalidades, olhares, diálogos. nenhum julgamento. todos são seres humanos absolutamente palpáveis, a senhora é a encarnação japonesa da minha avó, por exemplo. as discussões sobre trabalho, tradições, futebol, criação dos filhos e tudo o mais estão lá e vão levando aos temas centrais desta obra de kore-eda.

tempo, dor, perda, tradições. todos eles, com o desenvolvimento de 'still walking', surgem no primeiro plano. os personagens passam, essas quatro palavras continuam. o que nós vemos é a passagem e a continuação. 'still walking'. a vida continua. as tradições continuam. o tempo continua. e o diálogo final ainda, na minha sincera impressão, reflete o cinema japonês, de ozu pra kore-eda - sem comparações, por favor - nos personagens do filme.

ramirez, de albert arizza - 1/4
aviões de papel, de simon szabó - 0/4
seguindo em frente, de hirokazu kore-eda - 4/4



Escrito por Carlos Massari às 23h03
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o natural e o anti-natural

quanto dura o amor?, de roberto moreira
deixa ela entrar, de thomas alfredsson

não é de propósito - juro - que sempre tenho escrito sobre um filme excelente e um muito ruim. são as circunstâncias que me levam a isso, principalmente, as programações dos cinemas. mas vocês sabem que, como quase por tradição, eu devo começar falando do filme muito ruim. falar deles é bem mais divertido. é engraçado. é qualquer coisa, talvez tenha até um quê de constrangedor.

e constrangedor é a palavra que melhor define quanto dura o amor?, novo filme de roberto moreira, cineasta que anos atrás havia feito uma atrocidade chamada contra todos. o tema mudou, vejam só - não é mais uma família pobre em disputas mortais, e sim discussões sobre romances aleatórios (ou a impossibilidade deles). o cenário também mudou - saem as favelas paulistanas, entra a avenida paulista - grande evolução, eu diria - e aliás, as tomadas aéreas dessa parte sensacional da cidade são a melhor coisa de todos os 83 minutos de filme, principalmente quando você está logo ali, dentro de um cinema, vendo o filme. quase uma metalinguagem. ok, não.

roberto moreira tenta ser natural com esse filme, ou seja, há uma divisão entre três estórias, passadas em um mesmo prédio, com pessoas que se conhecem entre si de um lado e seres aleatórios da cidade em outro. a construção desses romances é pensada de forma comum - tem-se a demonstração da parte estamos apaixonados de um romance no começo, com diálogos bobos, que simplesmente não movem o filme e não tem praticamente nenhuma razão de existir. teriam, digamos, se eles não passassem dos limites do constrangedor. basicamente, através da naturalidade dos diálogos piada-interna e sobre o nada que um casal normalmente tem, o filme consegue uma grande anti-naturalidade, devido à completa impossibilidade de se levar a sério qualquer um deles. eles não cabem no cinema, nem mesmo na vida - que convenhamos, são duas coisas bem diferentes.

entre diálogos e ações, o filme vai se quebrando em pedaços, tanto porque roberto moreira passa longe de ser um bom diretor e não tem controle nenhum do desenvolvimento do que apresenta, como porque voltamos à velha questão, que eu adoro martelar por aqui, do personagem que não tem vida própria. os fatos que ocorrem não possuem nenhuma verossimilhança, estão ali porque quem escreveu o script quer que a trama vá a algum lugar, e essa trama passa por cima de questões naturais humanas para chegar ao ponto final, forçando situações e forçando ações. a não ser que você seja um gênio como tarantino ou godard, o ideal é criar o meio e deixar as coisas se desenrolarem naturalmente até o fim, e não criar o fim e forçar alguma bobagem no meio, passando por cima de qualquer questão realista que se conheça, para chegar até ele. isso, que fique claro, quando você tem intenção de contar algo realista, como três estórias de amor entre seres humanos que se cruzam em um prédio paulistano. do natural, surge o anti-natural.

continuemos a discussão: você é um garoto de doze anos, vítima de bullying e violência física na escola, mora sozinho com a mãe numa suécia congelada e coberta de neve. uma menina, também de doze anos, se muda para o apartamento ao lado. você se apaixona por ela, só que existe um grande problema: ela é uma vampira. o que é isso, crepúsculo em versão infantil? não. mas é uma grande bobagem e não tem absolutamente nada de natural, certo? errado, muito errado.

em primeiro lugar, esse é um conceito a ser desprezado quando você está falando de vampiros, já que - até onde se sabe - eles não existem. segundo, porque mesmo desprezando-se o conceito, ele está muito claro no desenvolvimento da estória de deixa ela entrar, essa obra-prima sueca dirigida por thomas alfredsson. existe, desde o começo, um cuidado excepcional com o modo que a relação se desenvolve. eles se conhecem, conversam sobre cubos mágicos e assuntos escolares e brigas - conversas do dia-a-dia, como em quanto dura o amor? - mas nada soa fora do lugar, nada soa forçado. os diálogos tem seu propósito, movem a trama sem saltos, com cada passo dessa teórica estória de amor sendo sutilmente demonstrado. você sente a paixão no casal, sente a completa e absoluta plausibilidade de um garoto de 12 anos e uma vampira se amarem. aprenda, sr. roberto moreira.

esteticamente, deixa ela entrar segue uma linha bastante conhecida na cinematografia sueca, com planos secos e longos, uso constante de câmera estática, cuidado excepcional com os enquadramentos e com a fotografia, que é excelente. sobre os enquadramentos, porém, vale dizer que eles possuem uma característica muito peculiar: muitas vezes, desviam-se dos rostos dos personagens, focando objetos, composições, reflexos, janelas. são personagens do mundo. trata-se de um exemplo de mise-èn-scéne, com o absoluto arranjo de cada elemento em cena, sejam os personagens e sua movimentação, sejam os objetos, tudo em comunhão com a câmera.

aos poucos, o filme vai se dividindo entres aspectos, não que precise necessariamente deixar de ter uma unidade para isso: primeiro, o horror clássico, vampiros que sugam sangue, a morte, o lado negro presente na alma de cada um - seja da vampirinha, seja de seu amado, o garoto de doze anos que adoraria arrancar o sangue dos seus colegas de escola. segundo, a fábula sobre a infância e a passagem para o começo da vida adulta, com o nascimento do amor, o nascimento das tensões e o súbito despertar de um novo mundo. essa investigação aqui é bem profunda, e nota-se toda uma transformação, principalmente em oskar, o garoto, que abandona os medos do início para poder se adequar ao que pede sua parceira. e por fim, o romance, mesmo que estranho, mesmo que incomum, mas que é absolutamente natural durante toda a projeção. você está com os dois personagens o tempo todo, e torce por eles. isso cabe no cinema, e cabe na vida - que, convenhamos, não são duas coisas tão diferentes assim.

deixa ela entrar ainda se revela praticamente um anti-filme de terror, uma vez que você acompanha as criaturas sobrenaturais e quem oferece os riscos e o medo são os seres humanos. a construção do medo não é nunca feita com trilha sonora alta e imagens frenéticas, como tipicamente no cinema hollywoodiano, mas sim a partir do desenvolvimento natural das situações, que geram ou não o susto e a tensão. a empatia e o afastamento são refletidos o tempo todo. é um filme absolutamente cuidadoso, que sabe de onde está saindo, e se desenvolve dando aos seus personagens o direito de escolha, tendo já no título um próprio diálogo com um deles. o garoto se apaixona por uma vampira. do anti-natural, surge o natural.



Escrito por Carlos Massari às 15h39
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