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um filme paulistano e outro nem tanto

fazia alguns zilhares de anos que o brasil não colocava dois filmes em cannes - por mais que dizer isso para 2008 também seja um tanto controverso. com o respeito internacional alcançado por fernando meirelles e walter salles, porém, isso ficou relativamente mais fácil e acabou acontecendo. os dois filmes - ensaio sobre a cegueira (blindness), de meirelles, e linha de passe, de salles, são amostras das contradições paulistanas, da tão clara divisão que essa cidade possui - só que refletindo no cinema e gerando, mais que duas cidades, dois cinemas.
meirelles é autor de nada menos que cidade de deus, filme que provavelmente aumentou infinitamente o respeito estrangeiro ao que se produz por aqui, conseguiu indicação para oscars importantes e até hoje figura entre os líderes do top do IMDB. depois disso, resolveu levar à tona a denominação tão na moda de diretor mundial e vem sendo um peregrino e fazendo filmes em várias cidades, tão complexamente centrados em tantos lugares. blindness é o maior exemplo que ele já conseguiu disso, passando-se em uma metrópole sem nome, filmado em várias cidades, passa o tempo todo um ar completamente estranho. é um filme falado em inglês, baseado em uma obra portuguesa, de um cineasta brasileiro, filmado em são paulo, montevidéu e toronto. mais cosmopólita, impossível.
uma produção de tamanho porte realmente põe em xeque o que havia sido dito lá em cima sobre dois filmes brasileiros em cannes, visto que só o diretor e a locação principal é originária daqui. mas ampliando o raciocínio, seria melhor que nem tivesse ido para lá, visto que a má recepção é plenamente justificável - o filme sofre de um mal muito comum às adaptações literárias, que é parecer sempre estar usando a linguagem errada. a imagem nunca consegue passar o que se esperava, e mais que isso, é complicadíssimo falar em imagem em um filme onde todos os personagens estão cegos. temos aí provavelmente um dos maiores problemas linguisticos que o cinema já encarou.
as soluções encontradas absolutamente não são satisfatórias, e o que sobra para blindness é a parábola fantástica criada por josé saramago. mas até aí, ela é toda literária, e não cinematográfica. talvez a superprodução toda tenha sido errônea aqui, e o ideal fosse simplesmente uma adaptação mais simples, centrada nos personagens e sentimentos. a são paulo mostrada, das grandes avenidas, do céu tão modificado para demonstrar a parte classe-média burguesa que a cidade demonstra pouco cumpre seu papel, e meirelles tem um primeiro choque à sua reputação tão bem criada por cidade de deus.
do outro lado, linha de passe vem de walter salles, cineasta que eu sempre tive problemas em aceitar - como já dizia aquela sensacional comunidade do orkut, o brasil é muito bonito quando você é milionário e mora na frança. isso vale tanto para a seca e a miséria nordestina (central do brasil, abril despedaçado), como à periferia paulistana explorada nesse linha de passe. a diferença é que salles alcançou um ar de humanidade que nunca havia conseguido, chegou a um novo patamar no seu fazer cinematográfico.
linha de passe poderia cair nos mesmos problemas que centenas de outras produções mundiais acabam caindo ao pegar a mesma estrutura narrativa e falar de temas parecidos - são histórias que se desenvolvem mutuamente, no caso, sobre quatro irmãos e uma mãe, moradores de uma favela paulistana, todos passando por seus problemas pessoais, mas mostrando seus sonhos e suas ambições. temos o aspirante a jogador de futebol, o motoboy que lentamente emaranha pelos caminhos do crime, o crente e o caçula que procura pelo pai. são incontáveis as armadilhas que poderiam ter destruído esta obra.
vejam só: estereotipação de personagens, sucessão de tragédias feitas por elementos que estão ali só pra isso, reviravoltas pouco palpáveis com caminho para o choque, finais fáceis, pieguice e melosidade. é com extrema habilidade que salles realmente não cai em NENHUMA. muitas vezes pensa-se que algo aconteceria, quando como um pitbull aparece em certo momento do filme próximo a uma criança - um iñarritu ou paul haggis da vida e CERTAMENTE seria feito o raciocínio sensacional pitbull + criança = OBA, UMA TRAGÉDIA A MAIS PRO MEU FILME! felizmente, não há nada disso.
o filme é de uma poesia intensa e é lindamente sobre a vida. sobre a vida real, mas real mesmo, sobre pessoas que são extremamente complexas, guardam suas virtudes e seus defeitos muito bem guardadas mas, muitas vezes, não podem escondê-los. os dilemas emocionais de todos estão lá, nenhum deles é resolvido, a permanência de tudo é que faz do filme e desses personagens tão reais, tão próximos do público. não é mais um filme brasileiro sobre pobres, porra, por que brasileiro só faz filme sobre isso? só faltou ser no nordeste!, é um filme sobre pessoas, no caso, sobre aquelas pessoas.
o céu paulistano nesse caso é totalmente cinzento, poluído, real. tão ao contrário do céu maquiado de meirelles e blindness. tão ao contrário da literatura mal-filmada, em linha de passe o que se vê é cinema de primeiro nível.

e não percam, dentro de duas semanas, portanto, a partir da sexta-feira 17, cobertura completa da 32ª mostra internacional de cinema de são paulo.
Escrito por Carlos Massari às 22h42
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imagens não morrem, capitão

é absurdamente maravilhoso ver um gênio voltando à ativa mesmo sendo ridicularizado em seu país.
na imagem, zé do caixão confronta a fé. e imagens nunca morrem.
Escrito por Carlos Massari às 21h23
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Em Pedaços
três filmes alugados na última semana.
naçao fast food, richard linklater
cineasta sempre reconhecido por suas sutilezas e qualidades nos dialogos, seja na comédia (dazzed and confused, escola de rock), ou no romance/drama (antes do amanhecer/por do sol, tape), linklater me parece extremamente deslocado nesse filme que será o deus maximo dos vegetarianos chatos aimeudeusdoceunaomaltratemosanimais. o filme ainda tem uma estrutura narrativa interessante, mas estranha, ao acompanhar um personagem como se este fosse o "principal" e depois esquece-lo completamente, ligando a trama a outras figuras que sao explorados/exploradores da industria do fast food e prosseguindo com elas. avril lavigne em uma participaçao constrangedora. duas horas rodadas por um puta cineasta pra chegar-se a conclusao de que se come cocô quando se vai ao mcdonalds. enfim...
sweeney todd, tim burton
burton me parece bem seguro ao filmar essa fábula sanguinolenta sobre vingança e paixão, ainda mais com todo o trabalho técnico fodido que normalmente acompanha seu trabalho - aqui está tudo muito bem definido, seja a fotografia que realmente é muito sombria, seja a consistência estilizada do sangue - mas com uma estilização apropriada para o filme. tudo iria muito bem se o musical não começasse a cansar fortemente lá pela uma hora e pouco de duração, e se não tivesse um personagem muito constrangedor com cara de menina. mas é um trabalho bastante digno do mr. burton.
coisas que perdemos pelo caminho, susane bier
filme extremamente malhado pela crítica, coisa que achei estranha, principalmente conhecendo o excelente brothers, trabalho ainda na dinamarca da cineasta susane bier. aqui, o tema se repete com brutalidade - mulher perde o marido e coloca outro homem dentro de casa para ocupar seu lugar. e seres humanos são patéticos, como o filme bem vai mostrar. sem exceção. tem algumas cenas bem construídas, uma dramaturgia que até alcança sua força, mas bier é outra que me parece deslocada - brothers é um filme todo forte, cheio de imagens e sons impactantes, e aqui parece ter sido imposta a dar uma singeleza esquisita a seu trabalho. mesmo assim, não acompanho a maioria.
e puta que pariu, desde quando in the fire é pelo caminho?
american gangster, ridley scott
ridley scott? duas horas e meia? só podia ser um surto na hora de alugar isso. nao tive coragem pra ver.
Escrito por Carlos Massari às 02h25
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Wall-E

não gosto muito de definir filmes com adjetivos que normalmente caberiam melhor a uma pessoa. afinal, filmes são obras de pessoas. prém, até que ponto pode-se aplicar isto a Wall-E (idem, Andrew Stanton, 2008), esta pequena jóia da Pixar? minha mão coça desde que escrevi lá em cima o título do texto para chamá-lo de corajoso. é um filme corajoso, eu penso. mas corajoso não seria seu diretor? é, digamos que sim. ou não, já que seu filme anterior é procurando nemo, muito bonitinho, bem-feitinho, mas que em nada escapa da tradicional animação infantil norte-americana. questão complicada...
vamos ao que interessa: Wall-E tem uma meia hora inicial estarrecedora. lembra os momentos mais sombrios de Extermínio, Madrugada dos Mortos, entre outros belos exemplares do cinema recente de humor. ok, a comparação mais cabível seria com Eu Sou a Lenda, mas queria obras de maior qualidade. temos lá um personagem, sozinho, em um planeta devastado. é um robô catador de lixo. na verdade, ele tem uma companhia - uma barata. ele fica com sua rotina de utilizar seu pequeno tamanho para limpar a imensidão de detritos deixados pelos seres humanos. faz isso há séculos. e, principalmente, é um personagem humanizado - guarda coisas, assiste a musicais antigos, preocupa-se e cuida de seu animal de estimação. este começo é melancólico e desesperador. principalmente tratando-se de um filme que, teoricamente, é feito para crianças!
e é aí que está o ponto - Wall-E, bem mais que uma típica animação infantil, vai fundo em uma ambientação que se aproxima do terror. tem-se lá, é verdade, gags do robozinho que bate em alguma coisa, cai, se atrapalha, mas ele está sozinho! na terra devastada! sem diálogos! a própria opção de linguagem do filme é ousada, uma vez que não parece estar muito disposta a abrir espaço para a diversão e a felicidade das pobres crianças nesta meia hora inicial. e a força que ele alcança é incrível.
depois, vamos ter uma histórinha de amor muito bonita e bem construída envolvendo o personagem principal e uma robozinha que desce ao planeta em uma missão, o roteiro vai se desenvolver e o filme vai se aproximar do habitual - mas sempre com tensão em alta, imagem muito bem cuidada, saídas interessantes. e sem largar o pessimismo, mesmo quando se colore e se enche de diálogos. afinal, o futuro da humanidade, mesmo que haja uma pontinha de esperança para ele, é visto de forma calamitosa para boa parte da projeção. e isso, sinceramente, nao deve vir muito ao caso desta análise.
muita gente vai achar um monte de significados intensos para o filme, olha como a humanidade está perdida, olha como precisamos cuidar do meio ambiente, olha como as plantinhas são lindas, olha como o amor é lindo, a vida é linda, o cu da vovozinha é lindo. enfim, não vejo nada disso. quer dizer, está tudo lá, mas porra, quem é que vai se preocupar com isso num filme que tão claramente se preocupa em ser intensamente uma história de amor? e em um filme que se preocupa intensamente em mostrar uma sensação de desespero, de solidão brutal para um robô-humano? e com toda esta coragem, ainda? ah, por favor, esqueçamos a ecologia e as falsas morais.
fica no ar uma sensação de plena satisfação. e de ter-se visto a animação do século, até agora, talvez junto com a viagem de chihiro e toda sua poesia delirante.
Escrito por Carlos Massari às 02h41
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maio
o melhor mês do ano. não que isso signifique muita coisa.
027. A BESTA DEVE MORRER (CLAUDE CHABROL, 1969) *** 028. FALSA LOURA (CARLOS REICHENBACH, 2008) ***1/2 029. O SONHO DE CASSANDRA (WOODY ALLEN, 2007) *** 030. UM BEIJO ROUBADO (WONG KAR-WAI, 2007) *** 031. DESPEDIDA DE ONTEM (ALEXANDER KLUGE, 1966) **1/2 032. WILLI TOBLER E A QUEDA DA SEXTA FROTA (ALEXANDER KLUGE, 1972) **1/2 033. CADA UM COM SEU CINEMA (vÁRIOS, 2007) ** 034. COMO FESTEJEI O FIM DO MUNDO (CATALIN NICULESCU, 2006) ** 035. CÂMERA OLHO (DZIGA VERTOV, 1924) *** 036. MONIKA E O DESEJO (INGMAR BERGMAN, 1953) **
Escrito por Carlos Massari às 00h04
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promessas são difíceis
as pouquíssimas pessoas que leram o post anterior devem ter notado que ali foi feita uma promessa - coisa que normalmente eu costumo cumprir - de que, no prazo de uma semana, estariam aqui comentados os tres filmes que eu vi em são paulo.
pois bem. faltam algumas horas pra essa semana se completar, doze horas e quinze minutos, precisamente. e eu estou aqui, escrevedo, em uma madrugada de sábado, simplesmente por isso. afinal, não estou com vontade de fazer esse tópico. não estou com vontade de comentar nada. é. isso é só um cumprimento de promessa.
e comentários sobre filmes devem ser feitos quando o autor está inspirado. não adianta cair no velho clichê "ah, o roteiro é bom, mas a direção é ruim, ah, e muito boa aquela atuação da menina de cabelo verde-escuro-azeitonado". isso é irritante, principalmente pra um blog cujo dono não ganha nada pra escrever, tem pouco tempo pra isso, mas escreve porque gosta de ver filmes e antigamente tinha inspiração pra escrever sobre muitos deles. nem me lembro quando isso aconteceu pela ultima vez. mas gosto muito desse texto sobre santiago, aí embaixo. é, quem sabe a inspiração não volta?
enquanto isso, contentem-se com cotações com uma semana de atraso.
falsa loura - carlos reichenbach - 3.5/4 o sonho de cassandra - woody allen - 3/4 my blueberry nigths - wong kar-wai - 3/4
sim, eu gostei de todos. e, mesmo assim, não fiquei com muita vontade de escrever sobre nenhum deles. (mas tive algumas boas idéias, tenho que confessar. como dizer sobre o quão blueberry nights é repetitivo dentro da obra do kar wai. mas isso voces ja devem ter lido em todos os textos sobre o filme. é, não foram idéias tão boas assim. nem dizer que woody allen tem sido bem melhor sério há pelo menos uma década? é, é. talvez pudesse desenvolver. fica pra próxima!).
ê, fase. torçam por mim.
Escrito por Carlos Massari às 03h10
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tópico da vergonha
dois meses é um baita tempo. e é o tempo que faz que ninguém aparece por aqui. isso é triste. muito.
os meus motivos são claros: pouco tempo pra ver filmes, menos ainda pra vir até aqui postar. falta de carteirinha de estudante (tenho a provisória, mas sem foto. a definitiva já saiu, mas preciso enfrentar fila de duas horas pra pegá-la.), falta de vergonha na cara. agora, porém, isso mudará com a volta da possibilidade de pagar meia entrada.
vamos por partes corrigir este tempo todo e expor a vergonha da quantidade de filmes vistos.
1) MARÇO:
017. ESTAMIRA (MARCOS PRADO, 2004) *** 018. ALICE NAS CIDADES (WIM WENDERS, 1974) **1/2 019. O PREÇO DA AMBIÇÃO (GEORGE HUANG, 1994) * 020. A QUEDA DA CASA DE USHER (JEAN EPSTEIN, 1928) ****
pior mês de todos, como se repara facilmente. quatro filmes em trinta em um dias. o destaque fica todo com a queda da casa de usher, que é belíssimo e tem uma construção de atmosfera impressionante.
2) ABRIL:
ABRIL:
021. O LIVRO DE CABECEIRA (PETER GREENAWAY, 1996) *** /022. UM CÃO ANDALUZ (LUIS BUÑUEL, 1927) ***1/2/ /023. A IDADE DO OURO (LUIS BUÑUEL, 1930) **1/2/ 024. SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (STEVEN SODERBERGH, 1989) ** 025. THREE TIMES (HOU HSIAO-HSIEN, 2005) **1/2 026. PERSEPOLIS (VINCENT PARONNAUD E MARJANE SATRAPI, 2007) ***1/2
além das revisões buñuelísticas, alguns bons filmes foram vistos. se for para destacar um, fico com persepolis. marjane satrapi conta uma auto-biografia alternando momentos leves e pesados, dosando emoções, sempre envolvendo público e história. excelente.
próxima coisa: ontem fui a são paulo. o motivo: ver três filmes. a fria tarde paulistana estava deliciosa, a noite no espaço unibanco continua tendo um clima fantástico e é absurdo que eu vá lá tão pouco.
como vocês podem ver, o que mais há nesse tópico é lamentações com auto-crítica. não é por menos que ele se chama "tópico da vergonha".
porém, não vou dizer nada agora. prometo, repito, PROMETO, um tópico sobre os três filmes no espaço de uma semana. e digo que a viagem foi muito proveitosa e que eu gostei consideravelmente de todos.
e agora, torçamos para o verdão!
Escrito por Carlos Massari às 15h20
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janeiro + fevereiro
dois meses de pura vergonha. pouquíssimos filmes vistos, apesar de a qualidade ter sido bastante aceitável. vale fazer uma observação - no começo de março do ano passado, eu certamente tinha visto mais filmes, porém, não conseguia montar nem um top 3 decente de estréias do ano. um top 5 só foi ficar pronto lá pra agosto. em 2008, o top 5 já é totalmente plausível. certamente será um dos melhores anos da década em questão de qualidade, e mais certamente ainda será o pior em questão de quantidade.
e vamos aos dados!
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JANEIRO:
001. SANTIAGO (JOÃO MOREIRA SALLES, 2007) **** 002. SEXY E MARGINAL (MARTIN SCORSESE, 1971) ** 003. APOCALYPTO (MEL GIBSON, 2006) W/O 004. OUTUBRO (SERGEI EISENSTEIN, 1927) **** 005. EXILADOS (JOHNNIE TO, 2006) ** 006. MEU NOME NÃO É JOHNNY (MAURO LIMA, 2008) *1/2 007. DESEJO E REPARAÇÃO (JOE WRIGHT, 2007) ***
FEVEREIRO:
008. PARANOID PARK (GUS VAN SANT, 2007) ** 009. CEM ESCOVADAS ANTES DE DORMIR (LUCA GUADAGNINO, 2007) * 010. EU SOU A LENDA (FRANCIS LAWRENCE, 2007) ** 011. CONDUTA DE RISCO (TONY GILROY, 2007) ** 012. MARIA ANTONIETA (SOFIA COPPOLA, 2006) **1/2 013. ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (JOEL E ETHAN COEN, 2007) ***1/2 014. CLOVERFIELD - MONSTRO (MATT REEVES, 2007) ** 015. SANGUE NEGRO (PAUL THOMAS ANDERSON, 2007) ***1/2 016. JUNO (JASON REITMAN, 2007) **1/2
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top 5 filmes lançados no brasil em 2008:
1. Senhores do Crime (David Cronenberg) 2. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Christian Mungiu) 3. Sangue Negro (Paul Thomas Anderson) 4. Onde os Fracos não têm Vez (Joel Coen e Ethan Coen) 5. Desejo e Reparação (Joe Wright)
Escrito por Carlos Massari às 23h28
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retorno oscarizado
oscar é uma das coisas mais bizarras da humanidade. todos nós sabemos que é injusto, extremamente comercial, que tende a premiar filmes inferiores, que marketing conta muito, enfim, são várias verdades indiscutíveis. mas existe um glamour que o envolve, uma coisa com tom mítico que praticamente impede que alguém deixe de assisti-lo (coisa que eu mesmo já prometi fazer quando trash venceu). o principal fator é o adivinhar, o segundo principal fator é o torcer. então nada melhor para voltar com este blog depois de tanto tempo de atraso e descaso que um tópico com considerações sobre a festa desta noite.
vamos por tópicos, é melhor e mais fácil.
- conduta de risco é um filme bem amarradinho, com elenco afiado, principalmente tom wilkinson. tem um final consideravelmente bom, tem cenas que prendem a atenção. mas, sinceramente, oscar de melhor filme? muito, muito longe. essa indicação é ruim. é quase vergonhosa. mas é um avanço.
- afinal, deve ser o primeiro ano em muito tempo (ok, minha memória não lembra tanto tempo assim, só uns dois ou três anos pra trás) que não há uma BOMBA indicada ao prêmio principal. já tivemos crash, já tivemos babel, já tivemos em busca da terra do nunca... e normalmente voltados de filmes medíocres, no nível de conduta de risco, que chegavam até a vencer (uma mente brilhante, chicago...).
- juno é o bonitinho e bobinho da vez. o oscar adora comédias engraçadas com toques indies e uma aura de extrema pureza. praticamente todo ano uma delas é indicada. a cada cinco, uma é realmente fantástica. esse aqui está no mesmo nível de little miss sunshine, seu equivalente do ano passado. é legal. os personagens são legais. mas, sinceramente, oscar de melhor filme? muito, muito longe. e já deve estar chegando a hora de uma comédia realmente boa chegar e concorrer de novo.
- essa comédia bonitinha e bobinha não vence há muito tempo. nem me lembro qual foi a última vez. mas recapitulando aqui nos últimos anos, não me lembro dessa vitória. e não deve ser juno que vai quebrar o tabu.
- ah, sim, mas as comédias bonitinhas e bobinhas normalmente levam o oscar de roteiro original. e há muitas chances disso ocorrer novamente.
- e eu ficaria feliz se esse oscar fosse pra ratatouille, que apesar de não fugir do comédia bonitinha e bobinha, é melhor e bem mais divertido que juno!
- uma pausa: todos os indicados a melhor fotografia são sensacionais. todos os que eu vi, pelo menos (falta o escafandro e a borboleta), tem atributos pra ganhar o prêmio. então, que a academia decida!
- atonement tem uma estrutura excelente. tem boas atuações, é, digamos um filme de classe. eu gosto dele. mas, sinceramente, oscar de melhor filme? é um pouco demais.
- a academia parece pensar como eu. é o filme que menos tem chances entre os cinco. ou não... digo isso e aí acabo queimando a lingua... mas a questão é que é RARÍSSIMO um filme levar o prêmio principal sem estar indicado a direção. deve ter ocorrido umas duas vezes na história. meu prognóstico vem daí.
- outra pausa. os prêmios pra atuações femininas serão mais disputados que os de atuações masculinas. atriz coadjuvante tem duas disputantes e uma correndo por fora - pode tanto dar amy ryan, como dar cate blanchett. tilda swinton não seria total surpresa. ah, e ainda temos ruby dee! então realmente é uma incógnita. meu palpite é a atriz de gone baby gone, que eu não achei tão brilhante como a crítica americana pintou, mas esses prêmios fazem dela favorita. entre as atrizes principais, só marion cotillard tira o segundo oscar de julie christie. diria que a proporção é algo como 70% pra americana, 30% pra francesa.
- no country for old men é um filme sóbrio, sério e com o melhor que os irmãos coen sempre tiveram - humor negro de respeito. construido todo em cima de um silêncio magnífico, com javier bardem em forma, kelly macdonald idem, roteiro bem desenvolvido, final polêmico, mas pra mim totalmente aceitável, técnica irrepreensível, é um filme que eu aceitaria muito bem se levasse o oscar de melhor filme.
- e é o que deve acontecer. ele levou pga, dga, vários prêmios de associações de críticos... enfim, entra na noite como favorito. essa situação pode mudar (ou não) conforme a distruibuição das estatuetas.
- nas atuações masculinas, há menos o que se dizer: os oscars já são de javier bardem e daniel day-lewis. mas que eu acharia MUITO FODA viggo mortensen ser premiado, eu acharia. é uma atuação épica do aragorn em eastern promises.
- there will be blood é tão bom quanto no country for old men. mas eu acabo preferindo-o. explico: é um filme mais marcante, que incomoda, faz pensar, deixa cicatrizes em quem o assiste. além disso, tem dez minutos finais que entrarão para a história do cinema FÁCIL. uma das melhores conclusões, principalmente comparando-se com o contexto todo do filme, que vejo em tempos.
- enfim, que os senhores acadêmicos decidam. seja com os irmãos coen, seja com paul thomas anderson, o oscar de direção estará em ótimas mãos. seja com there will be blood, seja com no country for old men, o oscar de melhor filme estará em ótimos, ahn... rolos?
- ok, esqueçam essa piada imbecil de encerramento.
Escrito por Carlos Massari às 15h01
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este blog...
não morreu.
tenham calma, é só uma pausa.
semana que vem, assuntos já estarão resolvidos e voltaremos à ativa.
Escrito por Carlos Massari às 01h25
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um filme para um ano

poucas vezes um filme despertou em mim tantas idéias, tantos pontos de vista, tantos meios diferentes de se pensar. se é verdade que a opinião pode ser influenciada pela data, eu certamente acreditaria que essa relação tem um expoente muito grande aqui. amanhã, dia decisivo para mim, hoje, filme visto. como será visto mais adiante, ele tem extremamente a ver com essa situação de dia decisivo. pelo menos no modo como eu o entendi.
antes de mais nada, é preciso citar uma coisa que norteará todo esse texto. ok, duas coisas, visto que nem o nome do tal filme eu citei ainda. trata-se de santiago, de joão moreira salles - lançado comercialmente aqui lá pra agosto de 2007, portanto, o ano que o título cita é o que acabou de ir embora. não sou louco a ponto de definir qual é o filme do ano no dia 5 de janeiro, absolutamente não. mas a principal e superior coisa que precisa ser dita e que norteará todo esse texto e blábláblá, retomando a magnânima primeira frase do parágrafo, é que este filme é sobre memória. colocando até mesmo o termo em negrito: memória. talvez sobre esquecimento. mas esquecimento se enquadra em memória.
existem algumas discussões que podem ser iniciadas no campo da linguagem: até que ponto tudo que o diretor joão moreira salles passa sobre todos os acontecimentos citados é verdade? eu, particularmente, vou considerar que tudo é a mais plena sinceridade. vou considerar, como eu entendi e pensei na hora do filme, que a redenção de moreira salles é, de fato, o que santiago mostra.
enfim, vamos ao que interessa: 13 anos atrás, moreira salles teve a idéia de fazer um documentário sobre o mordomo de sua casa (praticamente um palácio), um argentino chamado santiago. foi ao pequeno apartamento no qual o cidadão morava e filmou várias cenas, porém, falsificando a maioria delas, mudando elementos, fazendo praticamente uma ficção. o que se pode dizer é que foi um filme do filhinho de papai sobre o mordomo. ele dava ordens, mudava a origem das coisas, escolhia as histórias que seu personagem deveria contar. eu imagino absolutamente que sairia um filme horrendo daí.
pois bem. salles não concluiu essa tal obra, não conseguiu montar e engavetou tudo. santiago morreu. o tempo passou e o cineasta, supostamente, amadureceu. revisitou tudo aquilo que tinha gravado e se revoltou consigo próprio, sua arrogância, sua falta de respeito ao personagem. resolveu retomar todo o material, mas desta vez, com um novo foco, uma nova ordem. um meio de pensar colocando santiago no centro da tela - e santiago, o homem das memórias, que escrevia biografias de centenas de nobres pelo mundo todo, viajando pelas bibliotecas, com a intenção de evitar que estes seres, viventes há quinhentos, mil anos, pudessem ser lembrados, não desaparecessem do planeta terra no âmbito da lembrança.
o filme muda de vou me divertir com o mordomo para vou construir uma investigação primorosa sobre o poder do tempo e da memória. o respeito pelos escritos, pela luta vigorosa de santiago contra o tempo aparece, portanto, de forma evidente já com salles fazendo exatamente o que seu personagem fazia com os outros - construindo um material concreto que evita o seu esquecimento e, por um curto período, vence o tempo. mas como já nos diria gaspar noé em seu irreversível, o tempo destrói tudo. serão necessários outros santiagos para, daqui alguns séculos, reconstruir tudo isso, postergar mais uma vez a perda.
o valor do tempo é o que se mostra como central o filme todo. o tempo é a) destruição. traz a morte, traz as dores, traz o tão citado e repetido esquecimento. por esse lado é construído o sentimento de tristeza que permeia todos os 80 minutos de projeção. a tristeza pela luta de santiago e pela sua reconstrução, a tristeza pela perda de tudo. mas, ambigüamente, o tempo é b) maturidade - a mudança profunda em moreira salles e, logo, no filme que viria a fazer. da mesma forma que traz a sabedoria e a melhor noção da vida, ele dilacera e destrói tudo. como ateu, essa questão me causa um medo, uma tenebrosidade absurda.
santiago é um filme lindo. muito lindo. e triste. muito triste.
e tem um diálogo que talvez resuma a mudança entre o que seria há doze anos atrás e o que foi hoje, provavelmente 1500% superior - há um pequeno spoiler a seguir, que dificilmente estragará alguma coisa, mas não é recomendável para quem não quiser saber o principal diálogo do filme:
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quando moreira salles era ainda criança, em uma noite que seus pais saíram, ele foi dormir com a casa vazia, apenas seus irmãos e santiago. porém, ao meio da noite, acordou com uma música. foi até a sala e viu, ao piano, o mordomo - este, porém, com sua principal roupa, a que usava nas festas mais importantes e reuniões com pessoas ilustres. não estranhou a música, mas sim a roupa. perguntou:
- santiago, por que essa roupa? - porque é beethoven, meu filho.
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esse diálogo exprime a noção de respeito que moreira salles, ao fazer as suas primeiras filmagens, não tinha. queria só brincar com o mordomo, oras. depois, o tempo, sempre ele, e provavelmente vários fatores mundanos, despertaram-lhe esse sentimento - acho que sentimento é a palavra errada, como eu havia dito ali em cima, noção. fez então algo extremamente respeitoso, primeiro com santiago, mas PRINCIPALMENTE, com a memória. ela, o tema do filme. santiago tinha respeito não apenas com beethoven, mas com a sua memória. moreira salles tinha respeito, então, não apenas com santiago, mas com tudo que aquela figura e aquelas filmagens lhe traziam de volta.
Santiago, de João Moreira Salles. Brasil, 2007, 80 Min. 4/4.
Escrito por Carlos Massari às 22h00
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foi-se embora...
o nosso caríssimo 2007.
mas foi-se com um último vez, vulgarmente conhecido como dezembro. vamos a ele.
166. 1408 (michael hafstrom, 2007) * 167. num ano com 13 luas (rainer werner fassbinder, 1978) **1/2 /168. superbad - é hoje! (greg mottola, 2007) ***/ 169. os donos da noite (james gray, 2007) **1/2 170. entre o céu e o inferno (craig brewer, 2007) ** 171. zodíaco (david fincher, 2007) *** 172. piaf - um hino ao amor (olivier dahan, 2007) *** 173. bobby (emilio estevez, 2006) **1/2 174. across the universe (julie taymor, 2007) ** 175. a via láctea (lina chamie, 2007) **1/2 176. jogo de cena (eduardo coutinho, 2007) **** 177. lady chatterley (pascale ferran, 2006) ** 178. a leste de bucareste (corneliu piromboiu, 2006) ***1/2 179. estrada da morte (john penney, 2006) 0 180. saneamento básico - o filme (jorge furtado, 2007) *** 181. o corte (constantin costa-gavras, 2005) *** /182. o bandido da luz vermelha (rogério sganzerla, 1968) ****/
182 filmes em um ano. média razoável, que deve cair no próximo e sucessivamente até eu conseguir, dentro de uns 80 anos, a minha aposentadoria. enquanto esse tempo todo não passa, ficamos neste impasse - falta de atualizações misturada e multiplicada com falta de interesse dos leitores. e o blog caminha com raros posts fora as típicas e tradicionais relações de filmes vistos no mês e, às vezes, algum top.
aliás, desta vez não colocarei tops por aqui. isso se deve a janeiro e fevereiro serem os meses dedicados à vista dos principais lançamentos perdidos do ano anterior, que certamente gerarão uma lista bem mais satisfatória. e junto com a lista, o prêmio para os melhores do ano, definitivo e que, se feito hoje, seria absurdamente injusto.
mas podem ficar tranquilos - eu provavelmente voltarei até mesmo antes deste prêmio.
Escrito por Carlos Massari às 23h09
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até 2008, são paulo!
na última quinta-feira, minha derradeira ida a são paulo. três filmes vistos, busca mal-sucedida por livros e, de uma forma geral, um dia bem menos proveitoso do que poderia ter sido. mas o que diz respeito a este blog é a parte cinematográfica, então dissertemos profundamente sobre ela.
across the universe, julie taymor
na próxima vez que eu assistir um filme absurdamente e incrivelmente esquisito, certamente o compararei com este aqui. across the universe é aquela idéia fantástica-mas-não-tão-boa-assim - é praticamente uma bifurcação que segue toda a projeção, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim com o mesmo impacto. e quase sempre eles estão relacionados ao mesmo princípio e à mesma partida - positivo: sim, as músicas dos beatles são excelentes, sim, um musical com elas seria algo incrível e sim, fazer acompanhamentos visuais e traçar alguma coisa por cima disso para criar uma atmosfera e ambientar o suposto musical renderia um belo filme. porém, logo em seguida pensa-se nas negativas: não, as músicas dos beatles não foram feitas para terem o menor sentido juntas, não, fazer um musical com elas não seria mais algo tão incrível assim e não, não há historinha romancesca triste, bonita, trágica ou com finalizinho de comédia romântica ou com clima david-lynchiano capaz de tornar essa salada mista alguma coisa com sentido.
como defensor do típico cinema experimental, foda-se o sentido, foda-se a linearidade, foda-se tudo e viva a inovação, soaria como certa incoerência chegar aqui e criticar across the universe. mas há nele uma vontade tão grande de que a história faça sentido, tanto esforço pra tudo, absolutamente tudo se encaixar, para girl e let it be e strawberry fields e sei lá mais o que contarem uma mesma história, que o resultado, no sentido narrativo, é um desastre quase que vergonhoso. não é à toa que já batizaram, até mesmo, o casal principal de jude e lucy.
eu ainda vejo uma compensação por parte da composição visual toda, pela inovação que o filme propõe e pelo seu espírito tão ousado, anárquico, não quero pertencer ao mais do mesmo. então, ainda nutro certa simpatia pela coisa toda. mas não dá pra ir muito além disso.
a via láctea, lina chamie
outro exemplo de filme alinear e anti-convencional que eu tenho fortes tendências a gostar, mas daí a gostar é um passo complicado. mas a via láctea tem seus vários méritos, principalmente na sustentação de seu argumento e de sua história. o problema é que nunca é bom sinal você não conseguir escrever cinco linhas sobre alguma coisa que você viu no dia anterior. é sinal de que essa coisa não foi capaz de te marcar, nem para bem, nem para mal, nem para porra nenhuma. sei que em alguns momentos eu me senti constrangido e que eu pensei que escreveria no texto que achei o filme imaturo, que imaginava haver muita coisa solta ali no meio sem ter um maior porquê - cena em que a mulher está sozinha, olha para a câmera, sorri, e pronto, corte, por exemplo. mas eu lembro também de ter achado o resultado levemente positivo. e eu não lembrei de não escrever esse texto sem nada pra falar sobre o filme.
jogo de cena, eduardo coutinho
eduardo coutinho é um GÊNIO. poderia parar por aqui. mas enfim, já que eu comecei... preciso dizer que eu me impressiono, verdadeira e absolutamente, com a capacidade desse cidadão de extrair de tanta gente tantas histórias foderásticas. com uma análise incial, a maioria de seus documentários - edifício master, peões, o fim e o princípio, etc, teriam o mesmíssimo foco - entrevistas com personagens do meio da multidão. em jogo de cena, há ainda um adicional metalingüistico (e eu tanto nao uso a trema que penei para achá-la aqui no teclado - há! - comentário inútil detected) que funciona muito bem, acrescenta bastante mas não é o principal - não supera, simplesmente, a magnitude das entrevistas.
aqui os principais destaques ficam com uma mineira que veio para são paulo, fez um filho em plena praça da sé e desde então trabalha como babá, uma velha grega há muito tempo desconciliada com a filha e uma moça carioca que engravidou porque não conseguiu aguentar um mês sem sexo a partir do momento que começou a namorar. todas elas, além de darem as entrevistas, são interpretadas por atrizes. o espetáculo metalinguistico, agora sem trema nem acento, é na identificação de quem é a personagem verdadeira e quem está atuando. coutinho, depois de como eu disse lá em cima, repetir tantas vezes a mesma estrutura, agora ainda brinca com ela.
e se essa rua fosse minha já é a cena do ano, sinto muito caríssimas concorrentes.
Escrito por Carlos Massari às 01h12
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protótipo de redenção.
pseudo-férias em andamento significam mais tempo para filmes e, bizarramente, mais tempo para escrever aqui. ok, não sei se a expressão bizarramente cabe aqui - a lógica seria o contrário. mas minha relação com o tempo e com este blog não faz sentido, não pode ser considerado dentro dos domínios do conhecimento humano. então, talvez caiba. ou talvez não. mas o tal protótipo de redenção do título diz respeito a fazer alguns micro-comentários sobre coisas que andei vendo nos últimos dias. ei-las:
1408, de michael hafstrom:
filme de terror que funciona na parte do fator what the fuck?, criando um ambiente que mescla o assustador e o infantil para o quarto de hotel que dá título a ele, mas principalmente pelas perguntas nunca respondidas (de propósito, felizmente!) e mistérios deixados no ar. isso teria colaborado para um bom filme caso não houvessem tantas falhas tão tipicamente hollywoodianas - principalmente uma centena de questões morais despreziveis levantadas como respeite sua família, aprenda a ter fé, nunca para de acreditar nas forças divinas, e, sobretudo, mesmo com as tragédias, a vida pode ser maravilhosa (com deus e a família no coração, claro!). sr. hafstrom, por favor, isso é um filme de TERROR. ninguém vai ao cinema ver um TERROR interessado em saber como se deve viver feliz com sua esposa! consequentemente, ao deixar este tipo de pautas de sub-moral tomarem conta do âmbito principal, deixando o citado fator what the fuck? para trás, 1408 chega muito mais perto do lixo que da glória.
num ano com treze luas, rainer werner fassbinder:
fassbinder é aquele cineasta cult que boa parte dos cinéfilos do mundo venera, mas que você, no caso eu, não consegue ver muita graça. seu cinema é centrado em parábolas morais, que ao contrário de 1408, são declarada e abertamente o tema central em torno das quais tudo gira - portanto, aqui está longe de ser um problema, até porque a moral fassbinderiana é um tanto quando diferente e até oposta de ame sua família. dito isso, o filme aqui segue as características de boa parte do que já assisti do cidadão - filme bem estruturado, bem realizado, mas longe, muito longe de empolgar. é ok, mas não foi desta vez que fassbinder me convenceu.
os donos da noite, james gray:
filme sobre o qual não encontro muitas palavras - normalmente, isso não é bom. nesse caso, não é bom, mas não necessariamente é culpa do filme. os donos da noite funciona bem dentro de sua proposta, é um policial envolvente e etc, mas cai no mesmo problema do fassbinder acima - falta a empolgação, o fator que o diferencie dos demais. sendo assim, fica com a mesma descrição também: ok.
zodíaco, david fincher.
estamos melhorando gradualmente. tanto eu quanto os filmes. eu estou melhorando porque finalmente, com meses e meses de atraso, vi uma das obras mais cultuadas, comentadas e esperadas do ano. os filmes... bem, não precisa de muita explicação. zodiáco é o que david fincher já fez de mais sóbrio em sua carreira - e não, isso não é bom. confesso que senti falta dos malabarismos visuais, das loucuras que o cineasta aplicou em filmes como Seven e Clube da Luta. Mas o foco aqui é diferente - A investigação de um caso real e famosississíssimo, o serial killer chamado, hum... zodíaco! narrado de forma linear, estrutura convencional e extremamente sólida, zodíaco revela que fincher, mesmo sem seus malabarismos, continua talentosíssimo. o trabalho é bem feito, há poucos deslizes, principalmente na divisão que torna o filme praticamente um dois em um - primeira parte, investigação por parte da polícia, segunda parte, obssessão do cartunista. mas ainda é pouco para criticarmos todo o belo feito que é o conjunto.
piaf - um hino ao amor, olivier dahan
praticamente uma antítese das biografias musicais recém-lançadas por hollywood, cujos principais expoentes são Ray, Walk the Line, entre outros - enquanto nas obras encomendadas por estúdios para ganhar oscares temos uma ladainha constante de gênio de infância complicadíssima, oh deus, que supera tudo, todos, se torna famoso, porém sua vida é uma merda pois ele é um merda que bebe o tempo todo, bate na mulher e nos filhos, até um dia encontrar jesus, se redimir e viver feliz para sempre, em piaf a coisa é toda mais complexa - a personagem principal, e vale aqui o comentário - atuação SOBRENATURAL de marion cottilard, encarnando todos os trajeitos, maneirismos e esquisitismos da cantora - é retratada como uma sofredora que tem plena consciência disso, coisa que se reflete em suas músicas e em toda sua própria vida. sofredora que não é assim por sua própria conduta, mas praticamente por um determinismo que a faz sempre, mesmo com todo sucesso possível, estar à beira do abismo. a bebida aqui não é vilã - na verdade, se há algum vilão, é o mundo. e não existe redenção. nem triunfo. existe apenas o que a pessoa deixará, nada além disso. no caso da personagem principal de piaf, acredito eu que tenha sido bastante coisa.
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a qualidade dos filmes cresceu em forma gradual, como deve ter sido percebido pelos comentários. 1408 ganha uma nota bem baixa, num ano com 14 luas e os donos da noite ganham de razóavel pra bom, zodíaco e piaf, de bom para muito bom.
e boas notícias - só não sei para quem - é provável que existam outras atualizações como essa com certa frequência. portanto, meus 0,0000001 leitores podem ficar no aguardo. há!
Escrito por Carlos Massari às 01h20
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Novembro
Antes da tradicional lista com títulos e cotações, alguns comentários rápidos sobre meia dúzia de filminhos recentes vistos por aí. Ok, o meia dúzia foi exagero - Não chega a tanto.
Jogos Mortais IV:
O fator interessante aqui é uma espécie de criatividade reversa, que deveria funcionar em um sentido, mas acaba sendo uma tragédia. Para qualquer um que viu o terceiro exemplar, ficou bem claro que não havia por onde dar um prosseguimento àquele filme, àquela já desgastada e surrada estrutura de Jigsaw encontra suas vítimas pecadoras e lhes dá uma bela lição. Enfim, o quarto filme usa a tal anti-criatividade para arrumar uma trama esdrúxula e absurda que sirva como fator de continuidade e continuar enchendo os bolsos de seus produtores de dinheiro. Além disso, já exercita a imaginação do público para que porra vem aí no próximo?
Sobre a edição, a subestimação da inteligência do público, o video-clipe em forma disfarçado de cinema, todas as soluções narrativas medonhas... bem, nada precisa ser dito, é só pegar o primeiro texto escrito sobre o filme que já estará tudo bem claro. pura e simplesmente queria fazer esse registro da incompatibilidade da existência desse saw IV com a suposta capacidade de raciocínio humana.
Superbad - É Hoje:
vem surgindo uma nova geração/tendência na comédia norte-americana desde o ano passado, sempre ancorada nos mesmos nomes, que tem rendido frutos excelentes. podemos citar aí O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos e, agora, o melhor de todos eles, este Superbad - É Hoje. Com um roteiro estruturadíssimo e que chega a lembrar, pela sua eficiência, Depois de Horas, de Scorsese, este filme ainda mescla a comédia escrachada e típica adolescentes nerds tentando perder a virgindade com um ar de ingenuidade e inocência que nos principais momentos funciona perfeitamente. É um anti-American Pie, se é que isso pode ser denominado - Apesar de o tema não ser o mesmo, a graça reside no inverso, a sátira é o inverso, não há escatologia, há uma ode à amizade feita, aparentemente, de coração. Belo filme, recomendadíssimo.
Os Invasores:
Mais um para cair na categoria existência inexplicável - O diretor de A Queda, cujo nome é muito complicado e, além de não conseguir escrever de cabeça, não estou com a mínima vontade de pesquisar (apesar de que daqui a pouco vou dar um Ctrl C + Ctrl V na relação dos filmes e vocês poderão ver o tal nome!), faz um trabalho relativamente decente e que não tem nada de mal-feito ou de ruim. Só que não se sabe exatamente qual o sentido de contar pela vigésima oitava vez a mesma história - Que ainda por cima, só foi contada por gente bem talentosa, como Don Siegel, Phillip Kauffman e Abel Ferrara. Basicamente, não é ruim, é só desnecessário e sem condições de concorrer com suas versões mais antigas.
A Pele:
Nicole Kidman aparecendo de novo, como no filme acima. E de novo em uma bola relativamente fora. Este daqui é cercado por todos os lados de estranhisse, tanto no sentido dos problemas narrativos, que dão uma completa falta de lógica ao que Steven Shainberg (Do belo Secretária) quer, ao personagem todo peludão que deveria ter sido vivido por Tony Ramos e seus amigos que entram na vida da fotógrafa protagonista. Falta algo para tornar tudo interessante, como era a salada mista de esquizofrenia da obra anterior de Shainberg. Por isso, novamente é uma bola relativamente fora estrelada por Kidman.
E vamos ao que interessa.
NOVEMBRO:
153. lust, caution (ang lee, 2007) **1/2 154. memória para uso diário (beth formaggini, 2007) *1/2 155. caótica ana (julio medem, 2007) **1/2 156. o pequeno italiano (andrei kravchuk, 2005) **1/2 157. o estado das coisas (wim wenders, 1982) ***1/2 158. woyzeck (werner herzog, 1978) ** 159. planeta terror (robert rodriguez, 2007) *** 160. o retorno dos malditos (martin weisz, 2007) 0 161. a pele (steve shainberg, 2006) *1/2 162. meu melhor inimigo (werner herzog, 1999) **1/2 163. jogos mortais 4 (darren lynn bousman, 2007) 1/2 164. superbad - é hoje! (greg mottola, 2007) ***1/2 165. os invasores (oliver hirschbiegel, 2007) **
TOP 10 2007:
1Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood
2 Borat, de Larry Charles
3 Marcas da Vida, de Andrea Arnold
4Ratatouille, de Brad Bird
5 Possuídos, Willian Friedkin
6 Superbad – É Hoje!, Greg Mottola
7 Planeta Terror, Robert Rodriguez
8 O Hospedeiro, Bong Joon-Ho
9 Medos Privados em Lugares em Públicos, Alain Resnais
10 Extermínio 2, Juan Carlos Fresnadillo
É, finalmente podemos expandir de cinco para dez. Em novembro! Grande feito!
Escrito por Carlos Massari às 21h54
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